Economia induz protestos em universidade de elite no Egito
Cairo, Egito – O líder estudantil falava em inglês para a multidão que cantava na instituição de elite Universidade Americana do Cairo. O líder, Amr El-Alfy, 20 anos, dizia aos colegas que estava frustrado com a falta de clareza da administração da entidade a respeito de um possível aumento de 40 por cento na mensalidade em resposta à economia descontrolada do país e à flutuação da moeda.
El-Alfy se disse tão frustrado que pensava em bloquear o portão do campus com seu carro, um Golf, da Volkswagen.
"Isto deveria ser um santuário econômico", ele declarou.
Durante dias, centenas de estudantes têm marchado pelo campus pontilhado de palmeiras, exigindo um limite aos valores pagos. As manifestações são as maiores e mais longas na instituição em anos, refletindo como os problemas econômicos do Egito atingiram praticamente todos nesta sociedade estratificada de 91 milhões de habitantes.
Enquanto os pobres se viram como podem para comprar comida e absorver os aumentos de preços de até mesmo um centavo, a classe média e os egípcios ricos adotaram a carona solidária e compram menos, colocando as economias em ativos estáveis, como imóveis, títulos de bancos e ouro, e decidiram esperar para ter filhos.
"Quando a crise econômica atinge a elite, isso significa que o sofrimento está em todo lugar. Se nós não conseguimos comprar, podemos saber o quanto as outras pessoas estão sofrendo", diz Malak Rostom, vice-presidente do sindicato dos estudantes.
Alguns egípcios podem zombar dos problemas dos filhos das famílias das classes média e alta, preocupados com os aumentos das mensalidades que encolhem os salários das grandes legiões de pobres do país. Mas gerações de formandos da Universidade Americana ajudaram a chefiar o governo egípcio, empresas e o terceiro setor, então qualquer problema no campus pode ter efeito ampliado do lado de fora.
"Você se pergunta se esse é o proletariado. Tudo bem, mas vocês não querem ter pessoas instruídas nesta sociedade?", questionou Amr Adeeb, famoso apresentador de televisão, como se esperasse uma cara de enfado coletiva entre seu público.
Os protestos na Universidade Americana começaram depois que sua administração criou um grupo para discutir as repercussões da decisão do Banco Central de desvalorizar a libra egípcia em relação ao dólar, em uma tentativa de reduzir a força dos operadores do câmbio negro e reforçar a economia descontrolada.
A decisão do BC fez parte de uma iniciativa do governo de conseguir um empréstimo de US$ 12 bilhões do Fundo Monetário Internacional, que foi concedido. Mas para estudantes cuja mensalidade está atrelada ao dólar norte-americano, a flutuação monetária ameaçou se traduzirem num aumento instantâneo nos valores, de 133 mil libras egípcias por ano para 187 mil anuais, no caso do curso mais barato.
Os 6.559 alunos da Universidade Americana são o ápice de um grupo de elite de 111.600 estudantes matriculados em universidades particulares, onde a grade curricular costuma ser lecionada em inglês e as mensalidades custam milhares de dólares por semestre. A grande maioria do 1,8 milhão de universitários egípcios cursam instituições públicas superlotadas e caindo aos pedaços, muitas vezes olhando os campi de elite com inveja e desdém.
Se as tarifas da Universidade Americana sempre estiveram longe do alcance da maioria dos egípcios, vale a pena observar que dois terços de seus estudantes recebem bolsas de estudos de acordo com sua necessidade financeira, segundo a administração, e algumas famílias vendem os bens para pagar o curso. Salam Hefzi, 20 anos e aluna de Marketing, conta que a mãe, viúva, vendeu dois apartamentos que ela herdaria para bancar seu curso.
"O dinheiro dá para mais dois anos, se a mensalidade não aumentar. Meu curso pode custar 250 mil libras egípcias. Estou morta de medo", explica Salam.
Os efeitos da economia em apuros sobre a classe média podem ser pequenos na comparação com o sofrimento dos pobres incapazes de comprar os alimentos básicos, mas isso não quer dizer que não sejam sentidos.
Em um shopping do Cairo que estava praticamente abandonado em uma tarde recente, o preço das roupas na H&M subiam tão depressa que as etiquetas estavam obsoletas e o caixa informava aos clientes os novos valores. Do lado de fora de outro shopping praticamente vazio, uma cliente, Roaya Iskander, 22 anos, conta que ela e o marido decidiram esperar outro momento para ter filhos por causa da instabilidade econômica.
Outros egípcios abastados tentaram impedir a perda de suas economias comprando apartamentos, títulos e barras de ouro. A venda de ouro subiu de 30 a 40 por cento neste ano, segundo Ehab Wassef, que representa vendedores do metal na União das Câmaras de Comércio. Mas muitos mais acordaram no dia seguinte à desvalorização monetária e viram que suas poupanças foram reduzidas pela metade.
"Você vive em determinado nível e é difícil descer", afirma Sana Saleh, 45 anos, viúva que teve de reduzir o consumo de comida e uso de eletricidade, para tentar manter a filha em uma escola particular cuja mensalidade é de US$ 110.
Timothy Kaldas, pesquisador não residente do Instituto Tahrir para Política do Oriente Médio, diz que os egípcios endinheirados gastam uma quantia significativa com educação, e que a maioria das escolas particulares mantinham as mensalidades atreladas ao dólar, já que muitos professores são estrangeiros.
A mensalidade da Universidade Americana – que já aumentou seis por cento neste ano acadêmico – é particularmente vulnerável às flutuações do câmbio. Metade do valor é definida em libras egípcias, a outra metade em dólares norte-americanos, mas os alunos costumam pagar na moeda local, segundo o câmbio oficial definido pelo Banco Central no dia do pagamento.
Após o começo dos protestos estudantis, a administração concordou em manter os valores do semestre na taxa de conversão de 8,80 libras por dólar, não importa quando seja efetuado o pagamento. Agora, os universitários estão preocupados com o próximo semestre.
"Não teremos uma solução fácil nem instantânea", afirmou o reitor, Francis J. Ricciardone, em comunicado oficial. "Estamos procurando maneiras de garantir que nenhum aluno seja forçado a nos deixar pela incapacidade de pagar o curso."
* Diaa Hadid e Nour Youssef
