Três desafios para o futuro prefeito de Canoas
Dividida pela BR-116 e pelo trensurb, Canoas enfrenta historicamente o desafio de buscar a integração viária e econômica entre os dois lados da cidade, além de garantir que a acelerada expansão urbana seja acompanhada de infraestrutura adequada. Nas últimas décadas, o crescimento por vezes desordenado resultou na precarização de algumas regiões, nas quais os serviços públicos não atenderam às necessidades da população, causando como uma das consequências o aumento da criminalidade.
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Diante desse contexto, os três principais desafios para a próxima gestão municipal são equacionar os problemas do transporte público e da coleta de esgoto e colaborar para a redução da violência.
A mobilidade preocupa tanto os canoenses que dependem de deslocamentos na cidade quanto aqueles que trabalham e estudam em outros municípios. O transporte público é comandado pela Sogal há décadas. Já a Vicasa é responsável pelo serviço interurbano. No início da manhã, é comum atrasos no horário dos coletivos. No fim da tarde, o problema soma-se à superlotação dos ônibus.
— O transporte público de Canoas precisa melhorar bastante. O atendimento é muito ruim, os horários são muito espaçados, algumas regiões não têm o atendimento necessário e isso dificulta a vida de todo mundo. Além, claro, de a passagem ter um valor elevado — explica o presidente da União das Associações de Moradores de Canoas (UAMCA), Alcindo Rodrigues Pereira.
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Outro desafio ao futuro governo será ampliar a coleta de esgoto. Hoje, o índice chega a 17,83% das moradias, segundo dados do Ministério das Cidades. O valor é inferior à média estadual (29,15%) e ao índice nacional (55%). A prefeitura argumenta que o indicador atualizado é de 30%, mas reconhece que está aquém do ideal. As consequências da precariedade do serviço são problemas de saúde de moradores que não dispõem do serviço, além de a ausência de coleta contribuir para alagamentos.
— Resolvem-se várias demandas e surgem outras. É natural e necessário qualificarmos os serviços públicos, principalmente os de saneamento e o déficit habitacional — afirma o prefeito Jairo Jorge (PT).
Embora não seja de total responsabilidade da prefeitura, a segurança é uma das áreas que recebe mais reclamações. Entre 2014 e 2015, os índices de criminalidade dispararam. Homicídios aumentaram 24,3%, furtos e roubos de veículos, 29%, e roubos, 26,4%.
— Houve avanços significativos, principalmente com a instalação de câmeras de monitoramento. Mas devemos investir em iluminação e revitalização de praças e aumentar a presença da guarda municipal — opina o reitor da Ulbra, Marcos Fernando Ziemer.
Sem o suporte de programas esvaziados pelo governo federal devido à falta de verba, como os Territórios da Paz e o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, e sem apoio do Estado, em crise, quem assumir a prefeitura terá de buscar saídas criativas para melhorar a segurança.
MOBILIDADE
42,7%foi o aumento na frota de veículos da cidade em nove anos, chegando a 186.266.
Engarrafamento na rua, superlotação no ônibus
Cozinheira em um restaurante no centro de Porto Alegre, Rosana Cristina dos Santos enfrenta diariamente o deslocamento entre o bairro Mathias Velho, o mais populoso de Canoas, e a Capital. Além de encarar a superlotação do coletivo da Vicasa, Rosana é obrigada a lidar com atraso. Na manhã de terça-feira, aguardou por mais de 50 minutos pelo ônibus, que deveria ter chegado em 15:
— Isso é comum, infelizmente. A gente sabe que o horário é meio aleatório. Na volta, a gente vem amontoado, não tem como todo mundo sentar e chegamos a ficar mais de hora dentro do ônibus, em pé. É cansativo para quem já passou o dia inteiro trabalhando — queixa-se.
O transporte intermunicipal não é de responsabilidade da prefeitura, mas pelas características de Canoas, que serve como dormitório para muitos trabalhadores e estudantes de outras cidades, o município costuma fiscalizar o serviço junto à Metroplan. No entanto, as queixas não se restringem aos ônibus da Vicasa. A Sogal, que atua na cidade há décadas e atualmente cobra tarifa de R$ 3,30, também é alvo de reclamações pelos mesmos motivos: atrasos nas linhas e superlotação dos coletivos.
— O serviço precisa melhorar muito. Hoje, além dos ônibus lotados, várias regiões não são atendidas. Isso prejudica a qualidade de vida dos trabalhadores — diz o líder da oposição ao governo na Câmara, Juarez Hoy (PTB).
O zelador Pedro Lopes, 74 anos, tem como rotina ir, de ônibus, do centro até o bairro Niterói, onde trabalha. Para fazer o deslocamento de cerca de 10 quilômetros, costuma levar mais de uma hora. O motivo é o atraso do ônibus.
— Normalmente, o ônibus das 7h chega lá pelas 7h50min. É uma dificuldade — lamenta.
Além dos problemas com o transporte, o novo governo terá de resolver os gargalos para a saída e entrada de veículos na cidade. Hoje, Canoas tem três acessos, que nos horários de pico costumam congestionar. Entre as opções, está construir túneis que atendam a demanda.
Em nove anos, a frota de veículos aumentou 42,7%, de 106.658 automóveis para 186.266. Já para o transporte público, a prefeitura deu início ao projeto do aeromóvel, mas a ideia não é consenso entre os candidatos ao cargo.
SANEAMENTO
17,8%do esgoto gerado é coletado e tratado em Canoas, segundo o Ministério das Cidades
Baixa coleta de esgoto provoca efeito cascata
Resultado da falta de investimentos e da crescente exigência devido à expansão desordenada da cidade, o serviço de saneamento de Canoas está entre os piores da Região Metropolitana. O município está no rol dos que não conseguem tratar um terço do esgoto que produzem. Segundo o Ministério das Cidades, Canoas, que é atendida pela Corsan, coleta e trata 17,8% de todo o esgoto gerado.
O índice se materializa em dificuldades para os moradores de vários bairros. Em Niterói, um valão no fim da Rua Marechal Deodoro recebe o esgoto de centenas de casas. Com a água da chuva que acumula, o local torna-se propício a enchentes. Em outubro de 2015, um temporal alagou a região. O aposentado Aldoir Jorge Vasconcellos da Rosa, 60 anos, perdeu quase tudo que tinha dentro da casa onde vive, tomada pela mistura de água da chuva e esgoto. Conseguiu salvar apenas a geladeira e o fogão.
— Moro aqui desde os sete anos, e esse valão sempre foi assim. Toda eleição aparece gente aqui dizendo que vai resolver, mas não acredito mais em ninguém. É muito triste perder as coisas e ter de ficar na sujeira porque o governo não resolve algo tão simples — lamenta.
A prefeitura admite que o saneamento é um dos maiores problemas, mas divide a responsabilidade com a Corsan, que é criticada pela gestão por supostamente não cumprir o contrato. A direção da Corsan contesta e diz que pretende estender a coleta de esgoto a 71% até 2021.
— Não é verdade absoluta que não cumprimos o contrato. Já investimos R$ 72 milhões entre 2009 e 2016. Há mais R$ 26 milhões em execução e R$ 216 milhões em obras a ser licitadas — afirma o diretor-presidente, Flávio Presser.
O Plano Nacional de Saneamento Básico prevê até 20 anos para universalizar os serviços de distribuição de água e de coleta e tratamento de esgoto.
— Não há dúvida de que o serviço da Corsan está muito longe do ideal. Acreditamos que uma opção para resolver essa questão seja implantar o tratamento misto de esgoto. O fato é que não podemos ter tantas regiões da cidade sem coleta de esgoto e com a água de qualidade ruim — afirma o presidente da União das Associações de Moradores de Canoas (UAMCA), Alcindo Rodrigues Pereira.
SEGURANÇA
Crimes em ascenção e medo de sair na rua
De segunda a sexta-feira, a rotina do zelador Mário Vitorino é a mesma todo fim da tarde: aguardar pelo filho Marlon, 12 anos, aluno do Colégio La Salle, na passarela ao lado da antiga estação de trem. O motivo é o medo de que o menino seja mais uma vítima de roubo na região — a própria mulher de Mário já foi assaltada neste ano.
— O pior é que todo mundo sabe que aqui tem assaltos quase todos os dias, mas nunca vi um PM ou um guarda municipal aqui — diz o zelador.
A falta de policiamento é um problema que se estende para outros pontos da cidade. No entardecer, ao lado do calçadão, ZH constatou a presença de um PM, por volta das 17h30min. Após cerca de 30 minutos, ele deixou o local e não foi substituído. O movimento ainda era intenso na região, na qual estão instaladas dezenas de lojas e restaurantes. Em abril, um tiroteio no centro comercial Via Porcello matou dois durante um assalto.
— Assaltaram até os garis que fazem a limpeza. São muitos os relatos de crimes. Os bandidos sabem que a polícia não aparece mais depois das 18h e fazem a festa — afirma um comerciante, que pediu para não ser identificado.
Garantir o policiamento não é responsabilidade da prefeitura, e sim do Estado. Canoas obteve alguns avanços nos últimos anos, com a instalação de câmeras de monitoramento e de um centro de vigilância e a contratação de guardas municipais — hoje, são 167 agentes, sendo 40 armados.
Além disso, o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, com a instalação dos Territórios da Paz, auxiliou na redução da criminalidade. Mas a escassez de recursos para o programa e a redução do efetivo da Brigada Militar contribuíram para o aumento da violência na cidade.
Além dos homicídios, que cresceram 98% nos últimos 10 anos, os roubos e furtos de veículos e assaltos a pedestres também aumentaram. Mesmo com o mapeamento de regiões consideradas mais propícias ao crime e a instalação de vigilância por câmeras, a violência não caiu. Um exemplo é o entorno da Praça da Bandeira, onde a falta de iluminação e a presença de usuários de drogas assusta quem precisa passar pelo local.
— Presença policial só se vê quando tem algo importante. Tento não andar sozinha e caminho me cuidando — diz a estudante Erika Ueno, 17 anos.
