Ely José de Mattos: crise, remédios e paliativos
Pessoas adoentadas são geralmente tratadas por duas vias, simultaneamente. Uma delas é o remédio, que se encarrega de curar (ou controlar) a moléstia. Só que este processo não necessariamente alivia os sintomas que o paciente está sentindo. Aí entra a segunda atitude no tratamento, que é o paliativo. Com sintomas controlados, os enfermos tendem a sentir-se mais animados e o remédio pode completar o ciclo. Acontece, eventualmente, de o remédio ser também aquilo que irá aliviar os sintomas. Mas nem sempre é assim.
Um país em crise é, em termos análogos, um país com a economia enferma. Como tal, precisa ser devidamente tratado. O que mais discutimos nos últimos dias são o diagnóstico e o potencial remédio associado. O Brasil, hoje, é um país com a dinâmica produtiva altamente comprometida, chegando ao estágio final de sofrimento, que é o desemprego. As causas que nos levaram até aqui passam, ao meu ver, pela adoção de estratégias de estímulo ao crescimento econômico que não eram sustentáveis, associadas ao adiamento das reformas que são absolutamente inevitáveis: tributária, previdenciária, trabalhista e política. O que temos hoje é um setor público consideravelmente ineficiente nas suas funções mais básicas (saúde, educação e segurança pública) e com déficits insustentáveis.
O remédio é a implementação das reformas. Acontece que é uma medicação extremamente debilitante, no curto prazo. É mandatório que paliativos sejam considerados ao longo deste processo. A reforma tributária pode ser uma exceção, neste contexto. Ela tem tudo para ser o remédio e o paliativo, ao mesmo tempo. Isso, porque a ideia – espero, eu! – é mudar a matriz tributária para que fique mais simples e menos baseada no consumo, o que desonera a população mais pobre.
A reforma trabalhista ainda é um grande mistério. Descomplicar as relações de trabalho é fundamental para salvar empregos – precisamos entender isso. Mas precisa estar associada à discussão de direitos, e não estou vendo clareza sobre essas ponderações até aqui. A reforma previdenciária é a mais polêmica de todas, pois tende a afetar gerações para que um ajuste economicamente saudável seja alcançado. Paliativos, como um sistema de proteção social bem estabelecido, precisam ser mantidos. Caso contrário, a adesão aos remédios pode ser comprometida.
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