"Ampliar o tempo não basta", afirma psicopedagoga sobre Ensino Fundamental de nove anos
Docente do curso de Pedagogia da Universidade Feevale, a psicopedagoga e mestre em Inclusão e Acessibilidade Jozilda Berenice Cândido Fogaça comemora o Ensino Fundamental de nove anos, pela ampliação do processo de alfabetização — de um para três anos. Milhares de alunos da rede particular do Estado entrarão pela primeira vez no 9º ano do Ensino Fundamental em 2016. Eles estreiam na nova etapa porque, em 2008, a maioria das escolas privadas alterou a duração do ciclo educacional de oito para nove anos. A medida pode diminuir os índices de analfabetismo funcional. Mas apenas ampliar o tempo, segundo a especialista, não basta.
Qual sua avaliação sobre o 9º ano?
O 9º ano é, no meu entendimento, um avanço em termos de universalização do Ensino Fundamental. A ampliação do espaço de construção da lectoescrita, pelo ingresso da criança aos seis anos e pelo tempo de alfabetização estar em um período de três anos, significa um avanço qualitativo. Grandes nomes da educação, como Emilia Ferreiro, já defendiam que ele não se dá num período de um ano, e sim num processo maior. As crianças não passam por aprovação e reprovação (até o terceiro ano), sendo respeitadas as diferenças e os sucessos.
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Os nove anos no Ensino Fundamental podem diminuir o analfabetismo funcional?
A grande expectativa é que sim. Daqui para frente, estudos vão indicar se realmente estamos atingindo os objetivos de evitar esse analfabetismo funcional. Para isso, é preciso um processo mais sólido e consistente de leitores reais, não só de decodificadores.
Apenas ampliar o tempo de estudo não garante qualidade. O que é preciso para que o ensino seja qualificado?
Precisamos qualificar as ações com práticas pedagógicas adequadas e professores bem remunerados, que estejam satisfeitos na sua profissão. É preciso que eles estejam engajados na busca da formação continuada, essa ação é mais importante do que ampliar o tempo de escolaridade. Focar na formação de professores muito especializados.
O que muda no currículo?
O Ensino Fundamental de nove anos por si só nos obrigou a repensar o currículo, só isso já foi bom o bastante. Hoje, vivemos o processo de construção da nova Base Curricular Nacional, que está aberta à consulta pública. Essa mudança vem acontecendo em um processo democrático, em que as pessoas podem opinar, discutir e registrar em sistema próprio suas opiniões. Está sendo formado um currículo voltado às questões sociais, que contempla a diversidade étnica, racial e de gênero.
Especificamente quanto ao 9º ano, quais as diferenças em relação ao currículo do que conhecíamos como a 8ª série?
Não existe uma mudança estática no 9º ano, há uma mudança curricular ao longo dos nove anos do Ensino Fundamental, que dependerá do projeto pedágio de cada escola.
O 9º ano pode deixar a passagem para o Ensino Médio mais tranquila para os alunos?
Acho que sim, mas vai depender de cada escola, de como cada escola faz a transição de uma etapa para outra. O 9º ano não garante nada se não houver planejamento pedagógico que, neste último ano, oportunize experiências e vivências antecipatórias.
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