Entenda por que Ronaldo Caiado pode ser o rival de Lula da Silva no segundo turno
Solicita-se que o leitor, majestade pública, leia e reflita sobre o título deste Editorial: “Entenda por que Ronaldo Caiado pode ser o rival de Lula da Silva no segundo turno”.
O que dirá o leitor, quem sabe seguindo o poeta parnasiano Olavo Bilac: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!”?
O leitor, talvez maledicente, poderá dizer: “Terá o editorialista escapado da Casa de Orates, ao lado de Simão Bacamarte?”
Por que o breve nariz de cera, como se diria nos tempos dos jornalistas Danton Jobim, Carlos Lacerda e Claudio Abramo?
A explicação é prosaica: as pesquisas de intenção de voto, as da circunstância, são, de fato, peremptórias: se as eleições para presidente da República fossem disputadas agora, em abril de 2026, o segundo turno teria como adversários o presidente Lula da Silva, do PT, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL.
Há, inclusive, a possibilidade de a disputa encerrar-se no primeiro turno — com vitória de Lula da Silva ou de Flávio Bolsonaro.
Mas há dois fatores a considerar. Primeiro, não há, no momento, uma campanha eleitoral acirrada. A pancadaria, por assim dizer, ainda não começou. Segundo, não houve, porque não está na hora, nenhum debate na televisão.
Portanto, é extemporâneo sustentar que só tem chance de vencer o pleito Lula da Silva ou Flávio Bolsonaro. As pesquisas quantitativas estão certas, porque avaliam a circunstância, quer dizer, parte da pré-campanha.
Entretanto, parte substantiva dos eleitores nem mesmo sabe quais são os pré-candidatos a presidente. Porque não estão interessados no embate eleitoral que, a rigor, ainda não há. Por isso, em levantamentos espontâneos, aparece o nome de Jair Bolsonaro, que, preso e inelegível, não pode ser candidato.
Ao contrário do que pensam alguns articulistas, talvez a maioria, a polarização atual pode não ser a de amanhã. Pode ser provisória.
Quando os eleitores tiverem, por assim dizer, “paciência” — o tempo adequado — para examinar as ideias e os próprios pré-candidatos, o que só ocorrerá um pouco mais à frente, aí o quadro poderá ser outro.
A velha história do jovem Flávio Bolsonaro
Sabe-se, do Palácio do Planalto à Esplanada dos Ministérios, passando pelas redações, que a máquina de guerra do PT — com forte presença na infantaria de alguns sites — vai atacar Flávio Bolsonaro. Será uma blitz sem dó nem piedade. O petismo é expert em demolir reputações.
Não se sabe como, pois não é dono de banco, Flávio Bolsonaro comprou uma casa de mil metros quadrados de área construída, no Setor de Mansões Dom Bosco, em Brasília por 6 milhões de reais. Teria financiado parte com dinheiro emprestado — 3,1 milhões de reais — pelo Banco de Brasília. O mesmo BRB que se associou, há pouco tempo, com o Banco Master, de Daniel Vorcaro, numa negociata de assustar ou impressionar mafiosos da ‘Ndrangheta, da Camorra e da Cosa Nostra.
O Ministério Público também investigou “um suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo a compra de 14 apartamentos e 23 salas comerciais no Rio de Janeiro”. Na campanha, Flávio Bolsonaro terá a oportunidade de esclarecer qualquer dúvida a respeito, por certo.
As supostas ligações de Flávio Bolsonaro com milicianos — como Adriano da Nóbrega, que se apresentava como bicheiro — serão expostas, eventualmente com informações novas e desgastantes.
Flávio Bolsonaro não tem como negar que, há 21 anos, em 2005, quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro, condecorou Adriano da Nóbrega — ex-capitão da PM — com a Medalha Tiradentes. Trata-se simplesmente da mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio. O parlamentar sequer considerou que o ex-militar estava preso no Batalhão Especial Prisional, sob acusação de homicídio.
As ligações com Fabrício Queiroz, militar aposentado, serão, mais uma vez, ressaltadas por seus adversários. As rachadinhas voltarão à ordem do dia.
Entre 2015 e 2021, a empresa Bolsotini Chocolates Café Ltda. — de Flávio Bolsonaro e de sua mulher, Fernanda Antunes Figueira — dirigiu uma franquia da Kopenhagen, no shopping Via Parque, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.
A loja de chocolates era, das franquias da Kopenhagen, uma das mais lucrativas. Dada a suspeita de lavagem de dinheiro (público) das rachadinhas — esquema operado em parte por Fabrício Queiroz —, o Ministério Público abriu uma investigação.
De acordo com o MP, o empreendimento pode ter “lavado” ao menos 1,6 milhão de reais. Promotores de justiça constataram que “depósitos suspeitos e dinheiro vivo eram usados para movimentar a loja”. Flávio Bolsonaro sempre negou a possibilidade de falcatrua.
Quando presidente da República, Jair Bolsonaro operou para “esfriar” as investigações sobre lavagem de dinheiro da franquia da Kopenhagen.
O que se está dizendo é que, na campanha, Flávio Bolsonaro terá de explicar o que nunca quis (ou não pôde) esclarecer.
Na campanha, Flávio Bolsonaro se apresentará como “filho de Jair Bolsonaro”? Será seu cartão de visita.
Há quem postule que o principal projeto de Flávio Bolsonaro é conceder anistia a Jair Bolsonaro, aos generais Augusto Heleno e Walter Braga Netto e ao brigadeiro Almir Garnier, entre outros. O outro projeto seria, com ajuda de senadores do PL, promover um confronto com o Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de “afastar” ministros, notadamente Alexandre de Morais.
Qual é o projeto administrativo e econômico de Flávio Bolsonaro? Não se sabe. O senador não tem experiência com administração — tanto que, ao perder a irrigação das rachadinhas, teve de fechar a loja de chocolate.
Os brasileiros vão eleger presidente um político que, como empresário, não deu conta de administrar uma pequena loja de chocolates?
Lula da Silva e a redução da pobreza
Pode-se não apreciar Lula da Silva por uma série de razões, como a falta de controle dos gastos públicos e de o país não crescer acima de 3%. Porém, o presidente tem experiência administrativa.
O Brasil tem problemas, mas continua crescendo e os programas sociais de fato beneficiam os pobres. A redução da pobreza vale, por certo, um governo. Com a ressalva de que os programas deveriam ser, além de assistenciais, inclusivos. Noutras palavras, os pobres precisam obter empregos — com renda acima do salário-mínimo — e não apenas receber Bolsa Família e outros benefícios.
Parte da esquerda sempre criticou o que chama de “assistencialismo”. Mas o assistencialismo é necessário, pois as pessoas, antes de tentar conquistar um emprego, precisam se alimentar todos os dias. Por isso não há como discordar de que, no campo social, o governo de Lula da Silva vai relativamente bem.
Ronaldo Caiado, segurança e saúde
No campo da direita, se Flávio Bolsonaro não tem experiência, Ronaldo Caiado, o pré-candidato a presidente pelo PSD, é exatamente o contrário.
Aos 76 anos, Ronaldo Caiado disputa mandatos desde 1989, quando foi candidato a presidente da República pela primeira vez. Portanto, está na política nacional há quase 40 anos.
Ronaldo Caiado foi deputado federal, senador e governador por dois mandatos. Portanto, está no circuito da política estadual e nacional, como parlamentar e gestor, há vários anos. Trata-se de um indivíduo que tem experiência como político e gestor.
No poder há três anos e quase quatro meses, Lula da Silva sempre diz que vai combater o crime organizado. De fato, há um certo combate. Mas de maneira episódica, não estrutural.
Em Goiás, no governo de Ronaldo Caiado e, agora, de Daniel Vilela, combateu-se (e combate-se) o crime organizado de maneira sistemática. Usou-se toda a estrutura de inteligência das polícias Civil e Militar para acossar os líderes e os “soldados” do PCC e do CV.
O crime organizado não foi inteiramente eliminado em Goiás — até porque, de caráter nacional, seus patrocinadores estão sempre circulando pelo país, traficando drogas. Mas no Estado a incidência de atos violentos do PCC e do CV é muito menor do que nos demais Estados. Em São Paulo e Rio de Janeiro, para citar dois Estados ricos, a máfia narcotraficante tomou conta. Manda e desmanda. Há quem diga que o PCC, na prática, teria de mudar de nome. Mais apropriado seria Primeiro Comando do Estado ou Primeiro Comando do País.
O promotor de justiça Lincoln Gakiya receia que, em breve, o Brasil se torne um narcoestado.
Durante a pré-campanha e, sobretudo, a campanha, Ronaldo Caiado poderá apresentar sua solução para combater o crime organizado. Mas não com teorias, e sim com exemplos práticos, os de Goiás.
Até por ser médico, Ronaldo Caiado contribuiu para melhorar, de maneira decisiva, a área de saúde de Goiás. Descentralizou os benefícios — que antes ficavam mais em Goiânia. Pesquisas sugerem que saúde terá um espaço amplo no debate público da campanha deste ano. É uma das preocupações sobretudo das mulheres.
Não há dúvida de que Ronaldo Caiado é um político liberal. Mas não se trata de um liberal arcaizante. Basta verificar que montou um Estado do bem-estar social em Goiás. O Pé-de-Meia foi inspirado num programa criado pelo ex-governador e pela ex-secretária de Educação Fátima Gavioli. O governo de Lula da Silva não nega a inspiração.
Então, quando os eleitores estiverem realmente se posicionando — e não será agora —, há a possibilidade de Ronaldo Caiado virar o jogo e se tornar o grande adversário de Lula da Silva? Sim, é possível. Mas terá de se apresentar, de maneira massiva, em todo o país. Terá de ser mais enfático do que já é. Conteúdo e consistência (além de ser decente), o goiano de Anápolis tem. Só precisa ser observado com a devida atenção. Por sinal, os evangélicos já estão atentos ao pré-candidato do PSD.
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