A saída do vereador Marquinhos Trad do PDT e sua filiação ao PV, fora da janela partidária para políticos com mandatos municipais, desencadearam uma disputa interna que pode terminar na Justiça pelo mandato na Câmara Municipal de Campo Grande. O impasse envolve a validade da carta de anuência apresentada pelo parlamentar e expõe divergências entre ele, a direção estadual do partido e o primeiro suplente, Salah Hassan. Pelas regras eleitorais, a troca de partido fora da janela pode levar à perda do mandato, já que a vaga pertence à legenda. Há exceções, como a comprovação de justa causa, entre elas a anuência formal do partido. Marquinhos, que foi eleito como o mais votado em 2024 com 8.567 votos, sustenta que está amparado por esse instrumento, enquanto adversários internos afirmam que o documento é irregular. O vereador afirma que buscou autorização formal antes da desfiliação, mas não conseguiu contato com o presidente estadual do PDT, Carlos Eduardo Gomes. Segundo ele, o dirigente não estava em Mato Grosso do Sul nos dias que antecederam o fim do prazo e, por isso, recorreu ao vice-presidente, Enelvo Iradi Felini. De acordo com Marquinhos, houve tentativa presencial de resolver a situação. “Fomos até a sede do diretório, estava fechada. Tocamos a campainha, ligamos para a secretária e fomos informados de que ele estava fora. Tentamos contato e não conseguimos”, relatou. Diante disso, disse ter seguido o estatuto partidário, que, segundo sua interpretação, permite que o vice responda na ausência do presidente. “A decisão foi pela carta de anuência total. Eles deram”, reiterou. Para o vereador, a eventual tentativa do partido de questionar o documento é contraditória. “O partido já se posicionou e deu a carta. Não tem por que discutir isso agora”, afirmou. Marquinhos também fez críticas à condução do PDT no Estado, citando dificuldades de articulação e ausência de comando local. Ele chegou a afirmar que o presidente estadual reside fora de Mato Grosso do Sul, o que, em sua avaliação, fragilizaria a atuação da sigla. “Isso demonstra o porquê de tantas saídas do partido”, disse. Questionado sobre a possibilidade de punição interna ao vice-presidente por ter assinado a anuência, o vereador evitou se aprofundar. “Eles que se entendam. Não pode sobrar para um filiado”, declarou, ao reforçar que agiu com base em um documento oficial. Do outro lado, o primeiro suplente do PDT, Salah Hassan, que obteve 2.411 votos no pleito de 2024, contesta todos os pontos apresentados por Marquinhos e afirma que a anuência não tem validade. Segundo ele, além de não ter sido assinada pelo presidente estadual, o estatuto do PDT não autoriza esse tipo de liberação, independentemente de quem a conceda. “O estatuto não permite anuência. Então, se não permite, não pode, nem o presidente nem o vice poderiam dar”, afirmou. Ele também destaca que não houve deliberação formal do diretório. “Não tem ata, não passou pelo partido. Foi uma decisão isolada”, disse. Hassan afirma que o tema já havia sido discutido internamente antes da desfiliação e que a resposta ao vereador havia sido negativa. “O partido já tinha dito que não iria conceder anuência. Esse assunto estava encerrado”, declarou. Para ele, a assinatura do vice ocorreu sem respaldo institucional e deve ser anulada. Na avaliação do suplente, a consequência da troca de partido fora da janela é clara. “Ele teria que entregar o cargo. O mandato é do partido”, disse. Como primeiro suplente, Hassan afirma que tem direito à vaga e que pretende acionar a Justiça, independentemente da iniciativa da direção partidária. “Eu preciso entrar, até por respeito aos meus eleitores. Não posso ficar passivo”, afirmou. Ele ressaltou que recebeu 2.411 votos e que a eleição de Marquinhos só foi possível graças ao desempenho coletivo da chapa. “A soma dos votos de todos é que garantiu o coeficiente. Existe uma responsabilidade com quem participou disso”, argumentou. O suplente também disse ter solicitado a expulsão do vice-presidente do partido, alegando descumprimento do estatuto. “Ele cometeu uma desobediência. Prejudicou todos os suplentes”, declarou. Segundo Hassan, a direção estadual avalia o pedido e discute o caso com a executiva nacional e assessoria jurídica. Sobre a ausência do presidente estadual no momento da decisão, Hassan confirmou que ele não estava na cidade, mas ponderou que isso não invalida as regras internas. “Mesmo na ausência, o estatuto continua valendo. E ele não permite anuência”, disse. O suplente também afirmou que mantém contato frequente com o dirigente e que reuniões recentes ocorreram normalmente na sede do partido. Enquanto o impasse se intensifica, o PDT estuda medidas para contestar a permanência de Marquinhos no cargo e reverter a vaga para a legenda. A tendência, segundo envolvidos, é que a disputa seja levada ao Judiciário, onde será analisada a validade da carta de anuência e a aplicação das regras eleitorais no caso. Procurado pela reportagem, o presidente estadual Carlos Eduardo Gomes não respondeu até a publicação.