‘Não tem como esquecer’: sobreviventes relatam como a tragédia do Césio 137 ainda marca suas vidas
“Não tem como esquecer.” A frase vem sem pausa, como quem já repetiu isso muitas vezes ao longo da vida. Quase 40 anos depois do acidente com o césio-137, em Goiânia, a tragédia ainda não terminou para quem viveu tudo de perto.
Lourdes das Neves aprendeu a conviver com uma dor que não se encerra. Ela perdeu a filha, Leide das Neves, de apenas seis anos, que se tornou o rosto mais conhecido do desastre. Mas o luto, no caso dela, nunca foi um ponto final — foi o início de uma sequência de perdas e marcas que atravessaram os anos. “Não tem como. É muito complicado”, diz em entrevista ao Jornal Opção.
As lembranças vêm em blocos, misturadas. A casa, o pó espalhado, a sensação de medo que ela não sabia explicar na época. Hoje, ela chama de intuição. Naqueles dias, mesmo sem entender o que estava acontecendo, algo parecia errado.
Depois veio o hospital, a separação da família, o isolamento. E, mais tarde, o cuidado com o marido, que também foi contaminado e passou anos lidando com dores intensas, em um sofrimento que, segundo ela, era difícil até de descrever.
“Ele gritava de dor. Tinha hora que eu precisava esconder as coisas dentro de casa, porque quando a dor era muito forte ele saía desesperado atrás das facas”, lembra, ao falar dos momentos mais difíceis.
Com o tempo, além da dor, veio o peso do olhar dos outros. Lourdes diz que perdeu, em certa medida, até o próprio nome.
“Hoje eu sou a mulher do césio, a mulher da radiação. Meu nome hoje é esse”, afirma.
Ao lado dela, Lucimar das Neves — que tinha 14 anos na época — cresceu dentro dessa história. A adolescência foi interrompida de forma abrupta. Em vez da rotina comum, vieram hospitais, isolamento, medo e um cotidiano marcado por incertezas.
Ele conta que, ao longo dos anos, nunca conseguiu retomar a vida de forma plena. As lembranças aparecem sem aviso, acompanhadas de mudanças de humor e episódios difíceis de controlar.
“Do nada, vem uma tristeza. Parece um distúrbio”, descreve.
Na época, o impacto foi imediato. Lucimar lembra do momento em que foi retirado de casa às pressas, sem sequer entender o que estava acontecendo. Dias depois, já estava dentro de hospitais onde nem os profissionais sabiam exatamente como agir.
“Ninguém sabia. Eles foram aprendendo com a gente”, diz.
Entre as cenas que ficaram na memória, algumas são difíceis de explicar. Pessoas sendo isoladas, procedimentos improvisados, medo generalizado. Tudo acontecendo ao mesmo tempo, sem respostas claras.
Com o passar dos anos, as consequências não ficaram apenas no corpo. Lucimar fala sobre um percurso de vida marcado por rupturas, dificuldades e tentativas constantes de se reorganizar — nem sempre bem-sucedidas. Em diferentes momentos, diz ter lidado com sentimentos extremos, em um processo que exigiu tempo e, principalmente, resistência.
Ainda assim, ele afirma não carregar ódio.
“Muita gente pergunta se eu tenho raiva. Não tenho. Foram vítimas também”, diz, ao se referir a outras pessoas envolvidas no episódio.
Para Lourdes, a dor também não se transformou em rancor. Ao longo dos anos, ela construiu uma leitura diferente do que aconteceu. Não culpa quem teve contato com o material radioativo, mas aponta para a negligência que permitiu que o equipamento fosse abandonado.
“Eles sabiam do risco”, afirma, ao falar dos responsáveis pela clínica.
Recentemente, a história voltou à tona com uma série inspirada no acidente. Para a família, assistir foi como abrir novamente uma ferida que nunca cicatrizou completamente.
Lucimar conta que tentou assistir mais de uma vez, mas não conseguiu sem se emocionar.
“Tem coisa ali que bate lá no fundo”, diz.
Lourdes também se reconhece nas cenas, ainda que diga que nenhuma representação consiga traduzir totalmente o que foi vivido. Para ela, há algo que não cabe em roteiro: a experiência de continuar vivendo depois de tudo.
Quase quatro décadas depois, o acidente com o césio-137 segue presente não apenas como um marco histórico, mas como uma realidade cotidiana para quem sobreviveu.
Para Lourdes e Lucimar, o tempo não levou a tragédia embora. Ela permanece — silenciosa, persistente — na memória, no corpo e na forma como a vida seguiu depois dela.
A tragédia que marcou Goiânia
O acidente com o césio-137 aconteceu em setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica desativada foi aberto por catadores, que não sabiam do risco. Dentro dele havia uma cápsula com material altamente radioativo. O pó brilhante, que chamou atenção pela aparência, acabou sendo manuseado e espalhado entre familiares, vizinhos e conhecidos.
A contaminação se espalhou rapidamente por diferentes pontos da cidade. Ao todo, mais de 200 pessoas foram expostas à radiação, e pelo menos quatro morreram em decorrência direta do acidente: Leide das Neves Ferreira, de seis anos; Maria Gabriela Ferreira; Israel Batista dos Santos; e Admilson Alves de Souza. Outras vítimas sobreviveram, mas ficaram com sequelas físicas e emocionais que atravessaram décadas.
Além das perdas imediatas, a tragédia também deixou marcas profundas em quem permaneceu. Famílias inteiras tiveram suas rotinas interrompidas, enfrentaram internações prolongadas, tratamentos dolorosos e, posteriormente, o estigma social. Muitos carregam até hoje as consequências do contato com o material radioativo — seja no corpo, seja na memória.
Quase 40 anos depois, o acidente com o césio-137 segue sendo lembrado não apenas como um dos episódios mais graves da história do país, mas como uma ferida aberta na vida de quem viveu aquele período. Para essas famílias, a tragédia não terminou em 1987. Ela continua presente, de forma silenciosa, em cada lembrança que insiste em permanecer.
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