As queimadas de 2020, que devastaram mais de 26% do bioma pantaneiro, poderiam ter sido evitadas ou drasticamente reduzidas se a rede de proteção atual já estivesse estabelecida. A avaliação é da bióloga Daniela França, coordenadora de programas de conservação do SOS Pantanal, que destaca o avanço tecnológico e humano na região nos últimos seis anos. Ela participou hoje do evento paralelo da COP15 (15ª Conferência das Partes) da CMS (Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres), "Monitoramento Integrado e Manejo de Fogo para Espécies Migratórias e Conservação de Zonas Úmidas no Sistema de Áreas Úmidas Paraguai-Paraná" Segundo a especialista, o cenário atual conta com uma estrutura robusta de monitoramento e resposta rápida. Houve investimento alto dos governos estadual e federal, tanto em equipamentos, monitoramento e brigadas. Só o SOS Pantanal coordena hoje 27 brigadas formadas pela própria instituição, além de prestar suporte com monitoramento de focos de incêndio para mais de 80 grupos, incluindo brigadas comunitárias, voluntárias e de propriedades particulares. "Com a estrutura que temos hoje, o desastre de 2020 não teria ocorrido daquela forma", afirma Daniela. Ela aponta que, na época, a ausência de equipamentos adequados era crítica. Hoje, o investimento de órgãos estaduais e federais garantiu a aquisição de frotas, drones para monitoramento de território e equipamentos de proteção individual para os combatentes. Além do reforço logístico, o Governo de Mato Grosso do Sul implementou políticas públicas como o PSA (Pagamento por Serviços Ambientais) Brigadas. O programa destina recursos oriundos de multas ambientais para financiar instituições que atuam na linha de frente da conservação e no MIF (Manejo Integrado do Fogo). No âmbito federal, houve a ampliação das contratações pelo Prevfogo/Ibama (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente) e o fortalecimento das brigadas indígenas. Daniela ressalta que esses grupos são hoje os principais guardiões do bioma: "O treinamento das brigadas indígenas tem aumentado e eles são, sem dúvida, os melhores combatentes que temos no território". Manejo tradicional - Um dos pilares dessa nova estratégia é o resgate do manejo tradicional do fogo, prática artesanal utilizada há séculos por pantaneiros e indígenas. O método consiste em realizar queimadas controladas durante a estação chuvosa ou em momentos de alta umidade, utilizando elementos da natureza para identificar o tempo exato da ação. "Eles sabem a hora e o local necessário para queimar. Jamais fariam isso na seca severa, pois entendem que o fogo perderia o controle", explica a bióloga. O objetivo do manejo artesanal é eliminar a "macega" — o acúmulo de vegetação seca que serve de combustível para grandes incêndios florestais no período de estiagem. A prática, anteriormente proibida pela "política do fogo zero", é hoje defendida pela academia e por técnicos. Daniela esclarece que, ao queimar o excesso de biomassa de forma prescrita e ordenada, criam-se aceiros naturais que impedem que uma faísca acidental se transforme em uma catástrofe de grandes proporções. A especialista enfatiza que o manejo controlado também garante a sobrevivência da fauna, incluindo espécies migratórias que chegam ao Pantanal justamente no período crítico. "No fogo controlado, os animais conseguem fugir. As brigadas atuam inclusive para afugentar a fauna antes da queima. A mortalidade é infinitamente menor", pontua. Apesar dos avanços, Daniela alerta que a integração total entre os entes e o investimento em saneamento básico nas comunidades rurais ainda são desafios. Para ela, a educação ambiental de base e o combate ao descarte irregular de lixo, que causa 99% das ignições por ação humana, são os próximos passos para blindar o Pantanal definitivamente.