Uma nova pesquisa feita pelo perito ambiental e subsecretário de Meio Ambiente da Prefeitura de Selvíria, Valcitinez Barbosa Santiago, indica que o número de nascentes degradadas nos municípios com florestas de eucalipto no Vale da Celulose saltou de 15 pontos monitorados em 2018 para 450 até o início de março deste ano. A explosão coincide com a expansão acelerada das plantações no leste de Mato Grosso do Sul, sede das gigantes mundiais da celulose, que cresceram, segundo dados oficiais do Estado, 500% na última década e atingiram 1,75 milhão de hectares em 2025, e já produz sinais de estresse hídrico regional, afetando municípios produtores de água, assentamentos rurais e áreas de agricultura familiar. Apresentado à Assembleia Legislativa e distribuído a órgãos ambientais estaduais e federais, o estudo aponta impactos potenciais sobre mais de 50 municípios e cerca de 200 assentamentos dependentes dessas fontes, além de expor lacunas de monitoramento público, fiscalização ambiental e planejamento territorial. Os dados chegam ao debate em um momento simbólico: Campo Grande sedia a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias, enquanto Mato Grosso do Sul se consolida como líder brasileiro e um dos principais polos globais da produção de celulose, com o desafio de conciliar desenvolvimento econômico e preservação dos recursos hídricos. Segundo Santiago, o levantamento começou como uma iniciativa de recuperação ambiental em assentamentos de Selvíria. À medida que as visitas de campo avançaram, o problema revelou escala regional. “Começamos com 15 nascentes e percebemos que o problema não era isolado. À medida que ampliamos o levantamento, o número cresceu rapidamente”, relatou. O trabalho evoluiu para um mapeamento regional com georreferenciamento e visitas de campo, abrangendo municípios vizinhos e áreas associadas às principais bacias hidrográficas do estado. Atualmente são 450 nascentes catalogadas, muitas com redução significativa de vazão ou completamente secas, segundo o técnico. “Tenho 450 nascentes cadastradas, todas com coordenadas geográficas”, afirmou. Imagens apresentadas por Santiago mostram cursos d’água antes perenes transformados em leitos intermitentes ou completamente secos. Um deles, exposto numa reunião com deputados estaduais, está na zona rural de Três Lagoas, na bacia do rio Sucuriú, fica às margens da BR-158, nas proximidades do Córrego do Pinto, a cerca de 15 quilômetros do centro do município, onde uma nascente antes ativa, com água acumulada para consumo de animais silvestres, hoje aparece completamente seca. Expansão recorde e mudança no território Grande parte do avanço da silvicultura concentra-se no leste sul-mato-grossense, onde megaprojetos industriais transformaram cidades como Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo e Inocência em polos da cadeia da celulose. Municípios vizinhos, que fornecem terras para o plantio, também registram mudanças profundas no uso do solo, na dinâmica econômica e na disponibilidade de água. Os investimentos bilionários trouxeram empregos e aumento de arrecadação, mas técnicos e lideranças locais relatam alterações no regime hídrico, na fauna e na paisagem. Segundo dados apresentados por Santiago, ao menos 53 municípios já possuem áreas plantadas ou estão sob influência direta da cadeia produtiva. Em Brasilândia, por exemplo, a silvicultura ultrapassaria 140 mil hectares. O pesquisador de campo que virou alerta incômodo Diferentemente de estudos baseados apenas em dados secundários, o levantamento é conduzido majoritariamente em campo. Santiago percorre propriedades rurais, assentamentos e áreas de preservação registrando nascentes com GPS, fotografias e medições de vazão. Sem equipe permanente ou programa oficial de monitoramento, tornou-se uma espécie de sentinela solitária de um processo que, segundo afirma, avança mais rápido que a capacidade institucional de acompanhá-lo. Embora não se declare contrário ao eucalipto e ao desenvolvimento econômico da região, ele defende critérios mais rigorosos de planejamento territorial. Sua atuação subsidia audiências públicas e debates técnicos, mas também evidencia a ausência de monitoramento sistemático por parte do poder público. Segurança hídrica sob pressão A perda de água superficial já afeta diretamente a agricultura familiar, o abastecimento local e a fauna silvestre, segundo relatos coletados nas áreas visitadas. Produtores rurais enfrentam dificuldades para manter hortas, criações e sistemas de irrigação dependentes de nascentes. Em períodos de estiagem, algumas propriedades passam a depender exclusivamente de poços ou fontes sazonais. Assentamentos também relatam prejuízos à apicultura, redução da produção agrícola e aumento da presença de animais silvestres nas lavouras. A pulverização de defensivos nas áreas florestais é apontada como fator adicional de impacto. Especialistas observam ainda maior circulação de fauna em áreas urbanas e periurbanas — como gambás, aves e antas, fenômeno associado à fragmentação de habitats e à escassez de água. Proteção insuficiente e debate técnico Um dos pontos centrais do debate é a eficácia das áreas de preservação no entorno das nascentes. Embora a legislação federal estabeleça faixas mínimas, técnicos avaliam que elas podem ser insuficientes em regiões hidrologicamente sensíveis. Entre as propostas discutidas estão a criação de zonas de amortecimento mais amplas, com distância mínima de 500 metros entre a floresta e as nascentes, monitoramento permanente de microbacias, mapeamento hidroambiental detalhado e revisão das práticas de manejo florestal. Outro foco de controvérsia envolve a destinação das compensações ambientais geradas pelos empreendimentos. Segundo Santiago e gestores locais, grande parte dos recursos não retorna aos municípios diretamente afetados, concentrando-se nas instâncias estaduais. O caso mais citado refere-se à unidade da Suzano em Ribas do Rio Pardo. A empresa teria pago ao Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) R$ 68,2 milhões em 2023, valor decorrente de processo iniciado em 2014. O plano de aplicação previa uso genérico em capacitação de servidores e unidades de conservação, sem detalhamento territorial. Segundo autoridades locais, nenhum recurso chegou diretamente ao município-sede. O ex-prefeito de Ribas do Rio Pardo, João Alfredo Danieze (2021-2024), do PT, afirmou que compensações raramente são percebidas pelas cidades impactadas, classificando o sistema como uma “caixa-preta”. "Nunca vi um centavo de compensação ambiental". De acordo com ele, os valores entram no caixa estadual e são distribuídos segundo critérios amplos, muitas vezes sem relação direta com os danos ambientais locais. Disputas judiciais tornaram-se frequentes. Em setembro de 2025, após uma década de litígio, Imasul e Ministério Público firmaram acordo de R$ 5,1 milhões referente à compensação da Eldorado Brasil Celulose em Três Lagoas — montante inferior aos R$ 45,6 milhões inicialmente discutidos. O valor será destinado ao Fundo Municipal de Meio Ambiente, principalmente para desapropriação de área às margens da Lagoa Maior e outras ações locais. O impasse surgiu porque parte dos recursos havia sido aplicada fora do município. Danieze também relaciona a degradação hídrica à densidade de plantio nas cabeceiras. Segundo ele, áreas que antes tinham cerca de 200 a 300 árvores por hectare hoje chegam a 1.400, dificultando a manutenção de corredores ecológicos e pressionando rios de menor vazão, como o Rio Pardo, onde a baixa oxigenação provocada pelo avanço de plantas exóticas, já afeta a fauna aquática. Para o ex-prefeito, seria necessária revisão legal ampliando a distância mínima entre plantações e nascentes. Um modelo econômico sob avaliação A silvicultura tornou-se um dos pilares do crescimento econômico de Mato Grosso do Sul, impulsionando investimentos e geração de empregos. O desafio apontado por técnicos e gestores é equilibrar esse dinamismo com a preservação dos serviços ambientais essenciais, especialmente a água. Sem monitoramento eficaz, planejamento territorial, legislação mais adequada e mecanismos transparentes de compensação, os impactos cumulativos podem produzir passivos ambientais de longo prazo difíceis de reverter. O caso do leste sul-mato-grossense surge, assim, como um teste decisivo para a capacidade de conciliar expansão industrial e sustentabilidade em regiões de fronteira agrícola e florestal. Um bom tema, aliás, para a COP15.