Da sala de aula à presidência da Assembleia Legislativa, o caminho do deputado Gerson Claro foi construído mais com escuta do que com holofotes — e, segundo ele, com uma convicção que atravessa toda a trajetória: a educação como ponto de partida para transformar a política. “Ela não muda o mundo sozinha, mas muda as pessoas que vão fazer as transformações”, resume. A frase não vem como discurso pronto. Vem da própria história. Filho de uma família de professores, nascido em Itaporã, no interior de Mato Grosso do Sul, Gerson começou a vida pública muito antes de disputar eleição. Foi professor, militou em igreja, atuou em sindicato e construiu carreira no Direito — base que, segundo ele, abriu portas para entender o funcionamento do Estado. Do interior ao centro do poder A política entrou aos poucos. Primeiro, com debates locais em Sidrolândia — cidade que ele define como “escola política”. Ali, circulava entre diferentes grupos: produtores rurais, professores, assentamentos e comunidades indígenas. A primeira eleição veio cedo — e com derrota. Mas, para ele, perder nunca foi o fim do caminho. “Na política, você não pode sair menor do que entrou”, diz. A frase virou método. Depois de tentativas frustradas, suplência e articulações, veio a eleição em 2018 e, posteriormente, o comando da Assembleia. Prefeituras pressionadas e pouco dinheiro na base Hoje no centro do poder estadual, Gerson faz uma leitura direta sobre uma das principais tensões da política brasileira: o dinheiro não acompanha as responsabilidades. Segundo ele, os municípios ficam com menos de 15% dos recursos, enquanto acumulam atribuições em áreas como saúde e educação. O resultado é um movimento previsível: prefeitos cada vez mais dependentes de deputados, emendas e articulações políticas. “A responsabilidade foi municipalizada, mas o dinheiro não”, resume, ao lembrar que, no passado, cidades chegaram a bancar estruturas que deveriam ser estaduais ou federais. Ele aponta ainda que reformas recentes, como a tributária, podem aprofundar essa concentração — tirando autonomia local e fortalecendo decisões centralizadas. Senado no radar, mas com cautela Apesar de já ter sinalizado interesse pelo Senado, Gerson adota tom mais pragmático neste momento. Diz que vê a Casa como espaço essencial para equilibrar os poderes e qualificar debates — especialmente em temas como atuação do STF e regras institucionais. Mas, na prática, reconhece que o cenário político está praticamente fechado e que o caminho mais provável é a reeleição para deputado estadual. “Há um tempo para cada etapa. Agora é momento de organização”, afirma. Assembleia em ano eleitoral: menos ruído, mais entrega À frente da ALEMS em um ano eleitoral, ele tenta equilibrar dois mundos: o embate político e a necessidade de manter projetos andando. Defende que a crítica é legítima — desde que tenha conteúdo — e que a presidência da Casa não pode agir de forma partidária. “É preciso garantir o direito de manifestação, inclusive das minorias, sem travar o que impacta a vida da população”, pontua. Mudança começa dentro de casa Ao falar sobre a participação das mulheres na política, Gerson adota um tom menos institucional e mais pessoal. Para ele, o avanço é real — ainda que lento — e não depende apenas de legislação. “Não vai se mudar só na força da lei. Vai se mudar com participação e com o interesse da sociedade”, afirma. Ele cita a própria família como exemplo de transformação cultural. Pai de dois filhos homens, diz que a mudança começa dentro de casa, na forma como se constrói o respeito e a consciência sobre igualdade. “Se eu não colocar isso na cabeça deles, não vou mudar a sociedade antes de mudar em casa”, resume. Para o deputado, esse movimento é gradual — “vai se espalhando” — e depende tanto de educação quanto de convivência. Política como construção — não como espetáculo Ao longo da conversa, Gerson evita frases de efeito e aposta em uma linha mais técnica e reflexiva. Critica debates superficiais e defende mais preparo no Congresso. No fundo, a ideia que permeia toda a entrevista é a mesma do início: política não se improvisa. "Ela se constrói — com tempo, experiência e, principalmente, entendimento da realidade", diz.