Geraldo Ruffino, de 67 anos, já faliu inúmeras vezes, mas nada abala a positividade de quem venceu catando latinha na infância. Hoje ele visita lugares do país e do mundo para contar como conseguiu ter a maior empresa de reciclagem automotiva da América do Sul assim, com latas de refrigerante e cerveja que recolhia. O empreendedor mineiro esteve em Campo Grande neste sábado (14) para ministrar uma palestra particular na CDL (Câmara de Dirigente Lojistas de Campo Grande) e atendeu o Lado B enquanto almoçava no Augustus Restaurante, casa de peixe tradicional na cidade. Sem papas na língua, Geraldo conta que não deixou de catar lata, só mudou o tamanho delas. “Eu catava latinha, mas trabalhava com tanto empenho, amor e espírito empreendedor. Hoje é a mesma coisa, só mudei o tamanho. Mudei de endereço e não mudei meus valores. Não é o quanto você tem, é quem você tem. Não é o tamanho do negócio, é o tamanho das pessoas que estão com você”. Geraldo nasceu em Minas Gerais, mas cresceu na Favela do Sapé, em São Paulo. Aos sete anos, perdeu a mãe e a necessidade chegou cedo. Aos 8, ele já trabalhava ensacando carvão em uma fábrica. Depois deixou o emprego para catar latinhas em um lixão. O dinheiro era pouco. Ele e os irmãos montaram pequenos negócios improvisados, construíram carrinhos e passaram a alugar para crianças que trabalhavam como carregadores nas feiras livres. Além disso transformaram a própria casa em um “cinema”, cobrando ingresso para que outras crianças assistissem à televisão. Aos 13 anos, surgiu outra oportunidade. Rufino conseguiu emprego como office boy. Mas para que pudesse trabalhar, ele teria que voltar para a escola. Alguns anos depois, comprou o primeiro carro, um Fusca. Mais tarde adquiriu também uma Kombi, que passou a ser usada por um dos irmãos. Anos depois veio a segunda Kombi. Um acidente acabou com tudo, mas também abriu os olhos dele para um negócio. Sem seguro das Kombis, tudo parecia o fim da linha. A família decidiu desmontar o que restou dos veículos para vender as peças. Foi aí que surgiu a ideia de uma desmontadora e recicladora de veículos. “Eu nunca fali, eu nunca fracassei, eu só fiquei sem dinheiro. Esse é o menor dos meus valores. Na realidade, desistir não pode ser uma opção. Você já nasce disputando com muitas pessoas que poderiam estar no seu lugar, então você é privilegiado. Não há mais que obrigação de deixar algum legado. Todo dia levanto determinado a fazer alguma coisa que justifique a minha estadia por aqui. Nós nascemos locomotiva e não vagão”. Modesto, ele conta que não tem nada de especial e que a história dele é como a de qualquer outro brasileiro. “Perdi minha mãe com 7 anos e, de lá para cá, consegui fazer com que ela fosse imortal, inesquecível. Ganho força na base da família e todo dia procuro empreender. Gosto de olhar para as pessoas, nos lugares, para que elas olhem para dentro de si e vejam o gigante que têm lá dentro”. Voltando para a história dele, depois de anos na desmontadora o negócio foi melhorando, surgiram investimentos e propostas, e Geraldo criou uma empresa de carros. O negócio deu certo por pouco tempo. Geraldo faliu, mas se reergueu depois com ajuda da família. “Eu falo tanto de pessoas que vejo e admiro, pessoas que estão fazendo coisas neste país para fortalecer outras pessoas. Se nós nos unirmos com propósito, ao invés de ficar olhando para o estrume, o Brasil é o cavalo, tem que olhar para o cavalo. Nós estamos em cima do cavalo, montados nele. Eu não desisto desse cavalo. A gratidão é a chave. Tem que agradecer. Os tempos não são difíceis, eles são diferentes”. Em 2018, Geraldo escreveu o livro O Catador de Sonhos. A obra marcou o momento em que o empresário passou a ganhar mais projeção nacional também como palestrante e autor, contando a própria trajetória de vida. O material é um best-seller, um dos mais vendidos no país. O livro reúne memórias da infância pobre, o período em que catava latinhas e as tentativas de construir negócios até chegar à empresa de reciclagem automotiva. O segundo livro veio com o título 'O poder da positividade'.