Couve para a feijoada e o mistério de Ademar
Fernando Cupertino
Especial para o Jornal Opção
— Ademar, você não quer ir à feira comprar um maço de couve? Estou com vontade de fazer uma feijoada hoje e tenho tudo aqui, menos a couve…
Ademar levantou os olhos do jornal, deu um sorriso e respondeu candidamente: — Claro, Santinha. E por que não? Afinal, nada melhor do que uma boa feijoada num sábado! Daquelas que só você sabe fazer tão bem… Vou vestir uma camisa e já me ponho a caminho lá pra feira da Vila Nova.
Contente com a boa vontade demonstrada pelo marido em deixar o conforto do sofá para ir atrás do indispensável ingrediente, a mulher pôs-se logo a trabalhar: cortou a linguiça, o paio, a carne seca, as orelhas e o rabo de porco; colocou o feijão preto de molho, porque assim faria economia de gás no tempo de cozimento, e foi cuidar de outros afazeres da faina doméstica diária.
Ademar desceu do carro ao encontrar, na maior das sortes, uma boa vaga para estacionar, a apenas alguns metros da esquina de onde a feira livre se estendia pela rua inteira, num quase interminável desfile de barracas multicoloridas, fonte de todos os pregões possíveis e imagináveis:
— Bom dia, freguesa! Olha o queijo fresco…
— Galinha caipira já abatida e limpa, só dez reais!…
— Doces de Nerópolis: de leite, de figo e de banana; goiabada e marmelada de Santa Luzia, novinhas!…
— Olha a verdura fresca, diretamente da horta!…
Aproximou-se de uma vendedora cujas hortaliças estavam com ótimo aspecto e comprou logo a encomenda da patroa. Depois de pagar e já caminhando de volta para o carro, ouviu, por cima de todo aquele barulho, o som de um grupo de choro que tocava na calçada, à porta do Bar do Joca.
Bom violonista e muito conhecido nas rodas de choro da cidade, aproximou-se rapidamente do local e logo foi reconhecido com saudações entusiasmadas de alguns dos músicos, seus conhecidos de longa data: — Pessoal, vejam quem chegou! O Ademar! Mas cadê o violão, Ademar? Não trouxe? Que pena… mas não há de ser nada! Mané Bode deixou o dele aqui na semana passada e ainda não apareceu hoje. Toma lá e se junte aqui com a gente…
Ademar que, para além do amor ao violão e ao choro, apreciava bastante uma cervejinha bem gelada e uns torresmos de tira-gosto, não se fez de rogado e entrou na roda de pronto. Com a animação dos companheiros, os elogios dos passantes e as rodadas de cerveja, nem se deu conta do tempo que corria célere.
Lá pelas tantas, com o movimento da feira já praticamente terminado e os feirantes a desmontarem as barracas foi que lhe veio à lembrança a principal razão de estar ali.
— Pqp!* E o diabo da couve para a feijoada que eu vim comprar?!
Olhou no relógio e, com certo desespero, viu que já eram quase cinco da tarde. Largou de lado o violão, deixou algum dinheiro sobre a mesa para ajudar no pagamento da despesa, passou a mão na sacola plástica com as couves, que tinha ficado exposta ao sol num tamborete ali por perto, e despediu-se apressado dos companheiros, agradecendo a acolhida.
Ao chegar à casa, subiu tropegamente os dois andares de escada e entrou no apartamento. A mulher, com cara de poucos amigos, veio a seu encontro sem dizer uma só palavra. Plantou-se diante dele, cruzou os braços sobre o peito e ficou à espera de suas explicações.
Ele raspou a garganta, enquanto preparava alguma coisa para dizer, mesmo com cérebro embotado pelas várias cervejas que havia bebido. Com a voz pastosa, e com um sorriso ingênuo, meteu a mão no saco plástico e dali tirou o maço de couves murchas, já amareladas e desfeitas, dizendo orgulhosamente: — Demorei a achar, mas veio. Aqui está sua encomenda!
O final do caso é incerto. Alguns vizinhos disseram ter ouvido risos intermináveis do casal; outros juram que houve barulho de quebra-quebra.
O fato é que Ademar, daquele dia em diante, disse ter sido acometido por uma solene e permanente aversão a couves e a feijoada.
Nota
*“Pqp”: a velha e conhecida interjeição do “puta que pariu”…
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
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