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Voltar a Quando, de María Elena Morán, sugere a arte de partir sem abandonar

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Soraya Castro

Especial para o Jornal Opção

Há escritores que habitam mais de uma língua, como quem mora em duas casas ao mesmo tempo. Vladimir Nabokov escreveu em russo e em inglês, e traduziu a si mesmo entre os dois. Samuel Beckett escrevia em inglês e francês, o que deu origem a dois originais de um mesmo livro (e era seu próprio tradutor). Milan Kundera revisou com rigor as traduções francesas de seus romances tchecos até torná-las, na prática, reescrituras. João Ubaldo Ribeiro levou “Viva o Povo Brasileiro” para o inglês com as próprias mãos. María Elena Morán faz algo parecido: nascida em Maracaibo, Venezuela, e radicada no Brasil, traduziu para o português seu segundo romance, “Voltar a Quando” (Biblioteca Azul, 232 páginas). O gesto não é logístico. É literário. Uma escritora traduzindo a si mesma é habitar dois territórios ao mesmo tempo, exatamente o que “Voltar a Quando” pede de seus personagens.

Jornalista de formação, com trânsito entre ensaio e ficção, María Elena Morán pertence a uma geração de escritores latino-americanos que não tratam a história como pano de fundo, mas como pressão íntima sobre vidas comuns. Seu romance não é panfleto político nem saga épica; é literatura de escuta fina, de memória insistente, de tempo que não se organiza em linha reta.

E, talvez por isso, pegou de surpresa.

Costumo brincar que, se o menino do filme “Sexto Sentido” vê pessoas mortas, eu leio pessoas mortas. Tenho uma tendência de confiar mais nos clássicos, aqueles que já sobreviveram ao tempo. Confesso que torço um pouco o nariz para boa parte da ficção contemporânea, sobretudo quando cede à tentação da redenção obrigatória, do final que explica tudo, da moral que precisa agradar a todos. Falta, muitas vezes, confiança no leitor. Em “Voltar a Quando”, essa confiança existe, e é radical.

Nada no livro é espetacular no sentido convencional. Não há grandes reviravoltas, não há eventos grandiosos. O que há é memória em estado bruto. A narrativa se constrói a partir de um gesto simples e profundamente humano: olhar para trás. Não para resolver traumas, mas para habitar. O “quando” do título não é um ponto fixo no calendário, mas sim um território emocional. Voltar é revisitar o instante em que algo começou a se quebrar sem que ninguém percebesse. E essa visita dói.

A forma vai acompanhando o conteúdo. Parágrafos longos, rarefeitos de ponto final, conduzidos por vírgulas e deslocamentos sutis de foco, criam um fôlego próprio. Não é ornamento, é controle de ritmo. É a sintaxe transformada em estrutura emocional. A fragmentação não é capricho: a memória não obedece à cronologia, obedece à ferida. O passado invade o presente, corrige o presente, às vezes mente para o presente. E o romance se organiza como essas camadas que se sobrepõem.

Enquanto percorria as páginas, entrei na mente das personagens. Nina, Elisa, Graciela e Raúl, principalmente. Falecido desde o início, ele não surge como fantasma nem como truque sobrenatural. É memória incorporada à linguagem. A cena em que Graciela negocia a venda da casa enquanto “conversa” com o marido ausente é de uma delicadeza devastadora. Não é diálogo literal; é hábito, convivência, décadas de pensamento compartilhado. Raúl não interrompe a narrativa: ele a completa. A morte, aqui, não inaugura um mundo espectral; desloca o mundo que continua funcionando.

Lembrei de Juan Rulfo durante a leitura. Em “Pedro Páramo”, os mortos falam porque o mundo já colapsou, a morte é estado ontológico. Em “Voltar a Quando”, o vínculo ainda vive. A ausência não anula a presença, apenas a transforma. Também pensei em Juan Carlos Onetti, nessa densidade silenciosa, nesse modo de observar o que se desgasta devagar, sem heroísmo nem salvação grandiosa. Morán dialoga com essa tradição sem imitá-la, atualizando-a com uma escuta íntima e contemporânea.

O que mais me impressionou, no entanto, foi a atemporalidade. Muitos romances atuais já nascem datados, presos a debates imediatos ou a linguagens que envelhecem rápido. “Voltar a Quando” se apoia em experiências estruturais – luto, família, pertencimento, deslocamento. A Venezuela aparece como pressão histórica sobre vidas íntimas, como anotei no início deste texto, e isso dá ao livro fôlego longo. Imagino alguém lendo essas páginas daqui a quarenta anos, sem saber nada do contexto político atual, e ainda reconhecendo ali algo profundamente humano.

O final confirma essa ética. Não há redenção edificante, não há lição explicativa. Há coerência. E, para o leitor exigente, coerência consola mais do que qualquer solução simplificadora. Algumas histórias não têm moral, têm permanência.

Fui arrebatada porque o romance não quis me agradar. Não me guiou pela mão. Apenas existiu, com rigor e confiança, e me obrigou a caminhar com ele. Em tempos de pressa e explicação excessiva, isso é quase um gesto de resistência estética.

Talvez eu continue lendo muitos mortos. Mas, depois de María Elena Morán, passei a desconfiar menos dos vivos.

Soraya Castro, escritora, é colaboradora do Jornal Opção.

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