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Февраль
2026

Decolonizar, contracolonizar, indigenizar e a retórica da conservação

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Oterritório do conhecimento tem sido institucionalizado pelas universidades desde pelo menos o ano 427 (no calendário gregoriano) quando a universidade de Nalanda (Bihar, Índia), considerada por muitos historiadores a mais antiga do mundo, foi fundada pelo imperador Kumaragupta I (415–455). Nalanda abrigou cerca de dois mil professores e dez mil estudantes, oriundos da China, Coreia, Japão, Tibete, Mongólia, Sri Lanka e Sudeste Asiático. Permaneceu em atividade por 800 anos. Após alguns séculos de interrupção, esta universidade voltou a funcionar e vem sendo revitalizada há pouco mais de uma década. A universidade mais antiga em funcionamento contínuo até os dias de hoje é a Universidade de Al Quaraouiyine (Fez, Marrocos), fundada no ano de 859 por Fatima al-Fihri (Cairuão, 800 – Fez, 880), uma mulher árabe e muçulmana muito influente. A universidade se constituiu como um espaço aberto à diversidade de pensamento. Foi responsável pela formação de notáveis figuras públicas do mundo judeu ao cristão, além do árabe. No contexto europeu, a universidade mais antiga em funcionamento é a de Bolonha, fundada na Itália no ano de 1088. Em sua origem esteve fortemente vinculada à tradição religiosa cristã. Por séculos, apenas homens puderam participar da chamada escola livre, com foco na construção de conhecimentos jurídicos para assessorar a Igreja, príncipes e comerciantes locais. A historiografia ressalta a pesada carga de ideias e crenças sectárias no contexto de fundação desta e de outras universidades europeias nos primeiros períodos de sua existência. Antes de Bolonha, a precursora das instituições acadêmicas modernas na Europa foi a Escola de Medicina de Salerno, fundada no século 8 pela convergência das tradições hipocráticas gregas antigas, sicilianas árabes e langobardas. Foi a primeira instituição europeia cujo currículo e ensino eram abertos às mulheres e baseados em conhecimento empírico e não autoritário. Neste breve apanhado histórico é possível notar que a universidade é uma das instituições mais duradouras, suas origens são anteriores à constituição dos chamados estados e ciências modernas. Algumas universidades, embora sob tutela religiosa, gradualmente se tornaram espaços para reuniões espontâneas de professores e alunos. Associações de pessoas de diferentes origens dedicadas a todos os tipos de conhecimento, promovendo a circulação de diferentes culturas no espaço público. Este era o significado original de studium generale. Um erro etimológico comum é considerar a palavra universidade como originada do adjetivo latino universal. Em vez disso, vem da palavra latina universitas, que significa um todo, uma totalidade, mas também uma sociedade ou corporação no antigo direito romano. Com o advento da chamada modernidade, atrelada ao colonialismo, o processo de colonização do território do conhecimento — imaginemos um território abstrato do conhecimento da humanidade — apagou a história dos conhecimentos que vinham sendo construídos em contextos extrauniversitários, por exemplo, nas tradições judaicas, árabes, de diversos povos não originários da Europa, pelas mulheres, dentre outros. Quando as universidades começaram a se consolidar nos Estados Unidos, a partir do século 18, um processo de indigenização aconteceu com esforços para inserir nas instituições legitimadoras do conhecimento considerado válido, as necessidades locais da sociedade ali emergente. Mais do que um modismo, tal processo impactou sobremaneira a forma como as universidades contemporâneas funcionam. Mais recentemente, movimentos acadêmicos têm apontado a persistência de valores coloniais nas instituições acadêmicas e nas formas de se construir o conhecimento científico. São movimentos de pesquisadores que apontam a necessidade de rupturas nas formas de ser da e na universidade, de construir e legitimar os conhecimentos e de estruturar as hierarquias, por exemplo. Outros movimentos enfatizam a persistência de modos específicos de produção de conhecimento em comunidades que permaneceram relativamente apartadas dos impactos da colonização. Quanto a isso, busca-se assegurar que tais práticas construtoras de conhecimento sigam sendo construídas comunitariamente e contribuam socialmente sem serem atropeladas pelas ideologias dominantes nas ciências modernas e contemporâneas. Há ainda grupos de pesquisadores que reconhecem a permanência de processos específicos de produção e legitimação do conhecimento, sem necessariamente focar na exclusão do conhecimento produzido pelo colonizador. Estão atentos e valorizam discursos e práticas que não tiveram espaço suficiente ou adequado de interlocução com as instituições acadêmicas, reconhecendo seu potencial para contribuir com a ciência em um mundo plural, enquanto horizonte ético. Na direção dos propósitos de uma universidade que não se deixe capturar por interesses econômicos e políticos dominantes, esses caminhos são relevantes e necessários. Não entendo que haja complementaridade, mas suplementaridade entre eles. De modo que estar numa das frentes pode implicar deixar de assumir a outra. Cada uma das alternativas tem excedentes inabarcáveis pela outra. Ao mesmo tempo em que elas coexistem e atuam simultaneamente em diferentes situações do processo de democratização da ciência. Eventualmente, os grupos de cientistas priorizando cada um dos caminhos entram em choque e conflito, mas também podem se associar e compor estrategicamente em face de demandas factuais. A defesa intransigente da universidade como espaço plural de debate de ideias é um permanente desafio a ser cotidianamente lidado, na medida em que o sujeito do conhecimento, encarnado, é sempre atravessado por demandas extracientíficas. Incluindo aí a preocupação com a conservação de posições institucionais, a necessidade de partilhar recursos considerados escassos e de levar a sério a expressão de interlocutores cada vez mais diversificados no debate acadêmico-científico. (*) Danilo Silva Guimarães, professor do Instituto de Psicologia da USP





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