Liberdade artística ou intolerância seletiva? o debate que o carnaval de 2026 escancarou
O Carnaval de 2026 no Rio de Janeiro, tradicionalmente marcado pela celebração da diversidade cultural e da criatividade popular, acabou envolvido em uma polêmica que extrapolou os limites da crítica social e adentrou o terreno da desqualificação gratuita. A decisão de uma escola de samba de zombar de famílias consideradas tradicionais e conservadoras, em pleno desfile, reacendeu um debate importante sobre liberdade artística, respeito e responsabilidade pública.
É inegável que o Carnaval sempre foi espaço de sátira, irreverência e contestação. Desde suas origens, a festa incorpora elementos de crítica política e social. No entanto, há uma diferença clara entre questionar comportamentos ou estruturas de poder e ridicularizar grupos de cidadãos por suas convicções pessoais. Quando a ironia se transforma em escárnio direcionado a famílias que seguem determinados valores morais ou religiosos, o discurso deixa de ser libertador e passa a flertar com a intolerância.
O pluralismo é um dos pilares da democracia. Ele pressupõe a convivência de diferentes visões de mundo — progressistas, conservadoras, religiosas, laicas — sem que uma delas seja tratada como inferior ou digna de deboche. Ao estigmatizar famílias tradicionais como caricaturas retrógradas, a escola de samba contribuiu para aprofundar a polarização que já marca o debate público brasileiro. Em vez de promover reflexão, a mensagem soou como provocação.
A arte tem o direito, e muitas vezes o dever — de provocar. Mas também carrega consigo a responsabilidade de não reforçar divisões sociais de forma simplista. Quando um desfile atinge milhões de espectadores, dentro e fora do país, a narrativa apresentada ganha peso simbólico.
Outro ponto igualmente preocupante foi a inserção de mensagens que soaram como propaganda eleitoral antecipada em favor de Lula. A legislação brasileira é clara ao estabelecer limites para manifestações de campanha fora do período oficial. Ainda que manifestações políticas façam parte do ambiente cultural, utilizar um evento financiado com recursos públicos para promover, de forma indireta ou explícita, um nome específico para futuras disputas eleitorais levanta questionamentos legítimos.
Não se trata de defender censura ou silenciamento artístico. Pelo contrário: a liberdade de expressão é valor fundamental. Mas liberdade não significa ausência de crítica. Assim como artistas têm o direito de se posicionar, a sociedade também tem o direito de questionar quando esse posicionamento ultrapassa limites éticos ou legais. A crítica pública é parte saudável do processo democrático.
O episódio deveria servir como oportunidade de reflexão. O Carnaval pode — e deve — continuar sendo espaço de criatividade e debate social. No entanto, é preciso cuidado para que a celebração não se transforme em instrumento de divisão ou de promoção político-partidária fora das regras estabelecidas. Respeitar a diversidade inclui respeitar também aqueles que pensam diferente. E fortalecer a democracia passa, necessariamente, por preservar a lisura do processo eleitoral e o equilíbrio no debate público.
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