Se tem uma coisa que os anos não levaram da vida de Tânia Madinha é a vontade de cantar. Aos 68 anos, ela pega as partituras para se divertir e alegrar quem assistia à apresentação do Bloco Subaquera neste Carnaval. Desde jovem, ela era daquelas que ficava de olho no músico do bar até arrumar brecha para soltar a voz. Hoje, ela canta por Campo Grande, só na brincadeira, como diz, e bate ponto em todos os carnavais. Tânia conta que não tem instrumento, mas coragem sempre teve. Foi assim, na “cara dura”, que começou a cantar aos 25 anos, em uma churrascaria. Ela pediu o microfone emprestado para interpretar as músicas de Gal Costa. No final gostou tanto da sensação que nunca mais largou o microfone. “Eu sempre fiquei envolvida com música. Não sei tocar nada, mas eu sei cantar. Eu gosto e falo que eu estou aprendendo todo dia”, conta, rindo. Para ela, não há a menor pressa de transformar hobby em profissão. Isso nunca foi o propósito. O gosto musical nunca mudou muito. É MPB na veia: Chico Buarque, Milton Nascimento, Djavan, seresta antiga e tudo que dê vontade de cantar junto. Mesmo trabalhando como servidora pública hoje, a música segue atravessando a rotina, às vezes num barzinho com a família, às vezes só em casa mesmo. A relação com a folia vem da adolescência, quando saía para ver desfile, bloco, Carnaval de rua. Aquela alegria de ficar olhando as pessoas, curtindo a música e encontrando gente fez o hábito ficar. Hoje, ela continua batendo ponto, principalmente no Cordão Valu, onde comemora a festa como foliã há 20 anos, desde a fundação do bloco. “Não sei como começou a paixão por cantar no Carnaval, mas está aqui comigo desde que eu era adolescente mesmo. Eu morei na Antônia Maria Coelho e lá na comunidade Okinawa, onde a japonesada fazia o Carnaval. Eu ia pra lá para assistir, gostava. Era bem bacana. Nunca participei de cantar lá no Cordão Valu, só da festa mesmo.” Apesar de amar a festa, Tânia não se considera uma carnavalesca, porque diz que não gosta de se arrumar para a data, pelo menos não da forma que vê por aí, cheia de acessórios e brilho. Para ela, a festa é mais discreta, uma blusinha de lantejoula e um arquinho caem bem e são o suficiente. “Não gosto de me fantasiar. Mas gosto de ir bater meu pontão. Isso não pode faltar. Prefiro não faltar, só quando eu trabalhava na lanchonete, porque eu tinha bar no sábado e eu fazia feijoada, eu não conseguia ir. Mas, na terça-feira, eu estava lá, pra curtir mesmo.” Por um tempo, Tânia teve um bar e também uma lanchonete na Praça dos Imigrantes, época em que ainda existia o antigo Sarau de Segunda. Era ponto de encontro, conversa, música e movimento. A pandemia mudou os planos. Já na faixa dos 60, preferiu encerrar tudo. “Era muita incerteza. O pessoal queria que eu voltasse, mas achei melhor parar.” Porque, pra ela, a festa é simples e significa alegria, música e aquela sensação boa de esbarrar em gente querida no meio da multidão. E isso, segundo Tânia, já vale o ano inteiro. “E ver as pessoas, que às vezes você fica o ano todo sem ver uma pessoa, você encontra ela no Carnaval. Pra mim é uma felicidade. Esse ano mesmo já encontrei gente que acho que eu vi o ano passado. A vida é muito corrida.”