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A questão cultural do feminicídio

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O feminicídio não surge do nada, nem é fruto apenas de crimes isolados ou de explosões individuais de violência. Ele está inserido em uma construção histórica, social e cultural que atravessa gerações. De forma geral, é definido como o assassinato de mulheres motivado por questões de gênero, frequentemente ligado à violência doméstica, ao desprezo ou à discriminação contra a condição feminina, sendo considerado uma das formas mais extremas de violência contra mulheres.  Quando se fala que o feminicídio tem raízes culturais, isso significa reconhecer que durante séculos muitas sociedades foram organizadas sob estruturas patriarcais, sistemas sociais baseados na dominação masculina e na hierarquização de gênero, que restringiam o papel feminino ao ambiente doméstico e à submissão dentro da família e da sociedade. Esse modelo não apenas limitava direitos, mas também ajudava a normalizar a ideia de que mulheres existiam para servir — emocionalmente, domesticamente, economicamente e até sexualmente. Em culturas patriarcais antigas, a submissão feminina foi institucionalizada por leis, normas sociais e até discursos religiosos, criando a noção de superioridade masculina e reforçando padrões de comportamento que desvalorizavam mulheres. Ao longo das gerações, esses valores foram sendo transmitidos de forma silenciosa: na educação dentro de casa, nas expectativas sociais, nos papéis impostos desde a infância e na ideia de que o homem deveria comandar enquanto a mulher deveria obedecer.  Dentro desse contexto histórico, a mulher foi muitas vezes educada para não questionar, para aceitar, para suportar. Era comum que sua identidade fosse construída em torno do cuidado dos outros — marido, filhos, casa — e não em torno da autonomia ou da individualidade. Essa lógica ajudou a criar relações baseadas em posse, controle e dependência emocional e econômica. E quando uma cultura reforça a ideia de posse sobre o corpo e a vida da mulher, a violência pode passar a ser vista como forma de “correção” , punição ou reafirmação de poder. Pesquisas sobre as raízes socioculturais do feminicídio apontam que ele resulta de um conjunto de fatores históricos, sociais e culturais que estruturam relações de gênero de forma desigual e, muitas vezes, violenta.  O feminicídio, nesse sentido, é entendido como a expressão mais extrema de uma sequência de violências que podem começar com controle, ciúme, humilhação, agressão psicológica e física, até chegar ao assassinato. Além disso, a cultura machista historicamente colocou a mulher em posição de inferioridade e subserviência, reforçando a ideia de que ela deveria dedicar sua vida a servir, principalmente aos homens.  Esse pensamento não desaparece de uma geração para outra; ele pode permanecer de forma explícita ou sutil, influenciando comportamentos, relacionamentos e até justificativas para a violência. sso não significa que todas as pessoas de gerações antigas pensavam ou agiam da mesma forma, nem que a cultura é estática. Ao contrário, a sociedade muda — e vem mudando — com avanços legais, educacionais e sociais. Mas padrões culturais podem sobreviver por muito tempo, especialmente quando são reproduzidos dentro da família, na escola, nas instituições e na própria cultura popular.  Hoje, muitos especialistas apontam que combater o feminicídio exige mais do que punição criminal. Exige mudança cultural profunda: educação sobre igualdade de gênero, desconstrução de estereótipos, relações baseadas em respeito e não em poder ou controle, e novas formas de educar meninos e meninas sobre convivência e autonomia. Falar da origem cultural do feminicídio não é simplificar o problema nem culpar apenas o passado.  É entender que a violência extrema contra mulheres tem raízes estruturais e históricas, e que enfrentar isso exige transformação social contínua — nas leis, na educação, na cultura e, principalmente, nas relações do dia a dia. (*) Cristiane Lang, psicologa especialista em oncologia.





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