O maior rival de José Gevaerd agora controla a Revista UFO, criada por ele em 1985. A publicação foi vendida integralmente quatro anos após a morte do pesquisador e passou para Urandir Fernandes de Oliveira, conhecido como o “pai do ET Bilu”, maior desafeto de Gevaerd em vida e alvo de críticas públicas e denúncias feitas pelo próprio ufólogo, que o classificava como charlatão. A Revista UFO, considerada a publicação mais longeva do mundo dedicada à ufologia, passou a integrar a estrutura da UFO Intermediações, empresa presidida por Urandir e ligada ao Grupo Dakila Pesquisas. A Dakila tem base em Corguinho, município a 99 quilômetros de Campo Grande, e reúne um ecossistema de 23 empresas. A venda foi comunicada oficialmente aos leitores por Daniel Gevaerd, filho do fundador e ex-participante da 9ª edição do reality show Big Brother Brasil, da TV Globo. Ele assumiu a direção da revista após a morte do pai, em dezembro de 2022. Em nota pública, Daniel afirmou que encontrou a publicação em cenário financeiro crítico, com dívida próxima a R$ 1 milhão, acumulada durante a pandemia. Segundo o texto, a decisão de buscar uma parceria ocorreu para garantir a continuidade da revista. Daniel informou ainda que o processo de transição societária durou cerca de seis meses e envolveu negociações jurídicas, financeiras e estratégicas. Com a conclusão do acordo, a Revista UFO passou a operar sob o controle da UFO Intermediações. Embate histórico - A negociação causou forte impacto no meio ufológico por um motivo específico: o histórico público de rivalidade entre Ademar José Gevaerd e Urandir Fernandes de Oliveira. Os dois protagonizaram, ao longo de décadas, embates diretos sobre métodos de pesquisa, credibilidade de relatos e rumos da ufologia brasileira, especialmente em investigações realizadas em Mato Grosso do Sul. Em live no YouTube, a ufóloga Umaia Ismail relembrou que a inimizade entre os dois foi construída a partir de divergências profundas de abordagem e se tornou pública com o passar dos anos, incluindo disputas judiciais e críticas reiteradas feitas por Gevaerd à atuação de Urandir e de seus projetos. Duas vertentes da ufologia - Na mesma transmissão, Umaia contextualizou a venda dentro de um cenário mais amplo de transformação da ufologia brasileira. Segundo ela, a área acabou se dividindo em duas grandes vertentes ao longo dos anos. Uma delas é a ufologia tradicional ou científica, baseada na fenomenologia, no registro por meio dos cinco sentidos, em medições, avistamentos de naves e tripulantes e na análise de efeitos físicos. Essa sempre foi a linha defendida por Ademar José Gevaerd à frente da Revista UFO. A outra vertente é a chamada ufologia avançada, que parte do princípio de que esses seres já existem e se comunicam por meios como a telepatia, admitindo inclusive a possibilidade de entidades de outras dimensões, abordagem associada aos projetos liderados por Urandir Fernandes de Oliveira. Segundo Umaia, a mudança de controle da revista representa a migração entre essas duas linhas de pesquisa. Ela afirmou que a saída de nomes como Thiago Luiz Ticchetti e Marco Antônio Petit está relacionada à falta de afinidade com essa nova abordagem. Na nota oficial, Daniel Gevaerd afirmou que nenhum colaborador foi retirado da equipe e que a intenção da transição é fortalecer a revista, não promover divisões. Ele também disse respeitar a decisão dos profissionais que optaram por deixar o projeto neste momento de transformação. Rival histórico - Em 2018, o conflito entre Ademar José Gevaerd e Urandir Fernandes de Oliveira ganhou um de seus capítulos mais duros e explícitos. À época, o editor da Revista UFO enviou mensagem oficial à Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul repudiando moção de congratulações concedida a Urandir, criador do Projeto Portal e defensor da existência do chamado ET Bilu. A homenagem, proposta pelos deputados estaduais foi a segunda recebida por Urandir no Estado. A primeira ocorreu na Câmara Municipal de Campo Grande. No e-mail encaminhado aos parlamentares, Gevaerd classificou a iniciativa como “descabida” e disse sentir “profunda estranheza e perplexidade” diante do reconhecimento público. Em tom duro, o ufólogo questionou as motivações da homenagem. “Fico me perguntando se sua ação foi remunerada pelo senhor Urandir Fernandes de Oliveira, como é de seu feitio há duas décadas, ou se se trata apenas de ignorância pura e simples dos eminentes deputados. Em ambos os casos, é gravíssimo”, escreveu. Inimigo declarado de Urandir desde os anos 1990, Gevaerd sustentava que as narrativas defendidas pelo pesquisador descredibilizavam o trabalho de ufólogos que adotavam critérios científicos. No encerramento da mensagem, afirmou que o Estado não merecia ser visto nacionalmente como um lugar que premiava “fraudadores”. À época, Gevaerd já vivia em Santa Catarina, mas mantinha atuação ativa e influência nacional no debate ufológico.