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Acordo Mercosul–União Europeia retoma agenda dos anos 1990 e espelha nova geopolítica, avalia especialista

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Após mais de duas décadas de negociações, a confirmação da aprovação do acordo entre Mercosul e União Europeia reacendeu o debate sobre impactos econômicos, políticos e ambientais do tratado. Em entrevista ao Jornal Opção, o cientista político e analista internacional José Paulo Silva Ferreira, doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), afirmou que tratado não pode ser compreendido apenas como um acordo de livre-comércio.

Ele lembra que a iniciativa surge em um contexto geopolítico específico, ainda nos anos 1990, como resposta ao avanço da proposta de integração hemisférica liderada pelos Estados Unidos, a chamada Área de Livre Comércio das Américas (ALCA).

À época o Itamaraty via a ALCA como uma oportunidade, mas também como um risco de esvaziamento do processo de integração regional do Mercosul. “Não é à toa que o Acordo-Quadro Inter-Regional de Cooperação com a União Europeia data de 1995. Ele surge como contrapeso, oferecendo uma alternativa de integração fora do âmbito hemisférico”, afirmou.

Para os europeus, o acordo significava garantir acesso a matérias-primas e a mercados consumidores sul-americanos, além de consolidar uma parceria estratégica fora da influência direta dos EUA. José Paulo afirma que, naquele período, a União Europeia enfrentava menos pressões internas ligadas a subsídios e proteção de mercado do que enfrenta atualmente.

José Paulo Silva Ferreira é doutorando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), cientista político e analista internacional. | Foto: Arquivo Pessoal

“O significado histórico está na concretização de uma agenda iniciada no governo Fernando Henrique Cardoso, que se arrastou por décadas, quase se concluiu em 2019 e agora avança, mesmo sob forte pressão dos lobbies agrícolas europeus”, avalia.

O especialista lembra que o processo foi marcado por idas e vindas. Entre 1999 e 2004, houve dificuldades de convergência interna no Mercosul. Depois, o fim da ALCA e, mais tarde, a crise financeira de 2008 contribuíram para a perda de fôlego das negociações.

A partir de 2016, a chamada crise da globalização, simbolizada pelo primeiro governo de Donald Trump e pela paralisia da Organização Mundial do Comércio, voltou a impulsionar o diálogo entre os blocos. “De 2019 em diante, o acordo ficou travado por dois fatores centrais: os lobbies agrícolas europeus e as críticas ambientais ao Brasil durante o governo Bolsonaro”, explica.

Segundo ele, o impasse só começou a ser superado com a inclusão de um protocolo adicional, que incorporou normas sanitárias, ambientais e salvaguardas voltadas à proteção de setores sensíveis da agricultura europeia. Esse conjunto de medidas, afirma, foi decisivo para viabilizar politicamente o avanço do tratado.

Do ponto de vista econômico, José Paulo avalia que alguns setores brasileiros tendem a se beneficiar mais diretamente. Entre eles estão segmentos do agronegócio, como carnes, açúcar, café e suco de laranja, além de partes da indústria química, farmacêutica e metalúrgica, que podem ganhar com regras de origem mais favoráveis.

Ele diz que, porém, as salvaguardas criadas para viabilizar o acordo também limitam o fluxo comercial. “Elas tornam o acordo possível, mas também criam distorções sobre quem efetivamente se beneficia, ao menos no curto e médio prazo”, observa.

Ao ser questionado sobre quem sai ganhando mais com o tratado, o analista evita respostas simplistas. Para ele, acordos desse porte não podem ser avaliados apenas por critérios comerciais, mas também por seus efeitos políticos e estratégicos.

“É compreensível a preocupação dos agricultores europeus com a concorrência de países como Brasil e Argentina. Muitas dessas preocupações são apresentadas como sanitárias ou ambientais, quando, na prática, estão ligadas à proteção de um modelo agrícola altamente subsidiado, como o francês”, afirma.

Ainda assim, José Paulo ressalta que o acordo não seria assinado se fosse claramente desfavorável à União Europeia. No plano político, ele vê o tratado como um aprofundamento da parceria inter-regional em um mundo cada vez mais marcado pela desglobalização e por disputas de poder entre grandes atores internacionais.

Sobre as exigências ambientais, o pesquisador destaca que o tema aparece nos capítulos temáticos do acordo, especialmente nas medidas sanitárias e fitossanitárias. Ele reconhece que o debate ganhou força com o aumento do desmatamento da Amazônia e a postura do governo Bolsonaro, mas faz ressalvas.

“Houve adequações internas no Brasil, com participação dos estados e não apenas do governo federal. Ainda assim, é preciso relativizar o discurso ambiental e compreender que ele também funciona como instrumento de proteção de mercado”, afirma.

No caso da indústria nacional, José Paulo vê mais oportunidades do que riscos. Segundo ele, o acordo pode ampliar o acesso ao mercado europeu, reduzir tarifas e estimular exportações de bens com maior valor agregado, contribuindo para a reversão da re-primarização da pauta exportadora brasileira.

Ele lembra que a Confederação Nacional da Indústria (CNI) acompanhou de perto o capítulo de defesa comercial e as salvaguardas bilaterais. “Esses mecanismos podem funcionar como barreiras, mas também como instrumentos de abertura segura, permitindo o avanço político e institucional do acordo e protegendo setores sensíveis da indústria”, completou.

Com a aprovação no Conselho Europeu, o tratado ainda precisa passar pelo Parlamento Europeu para entrar em vigor.

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