Entenda as raízes históricas da tensão entre Estados Unidos e Venezuela
As tensões entre os Estados Unidos e Venezuela, que culminaram nos ataques ao território do país da América do Sul deste sábado, 3, são resultados de um processo histórico de décadas, marcado por disputas energéticas, sobretudo o petróleo, mudanças ideológicas e embates geopolíticos que se intensificaram a partir dos anos 90, explica o historiador Tiago Ciro Zancope, mestre pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
Segundo Zancope, a relação entre Washington e Caracas sempre esteve profundamente ligada ao petróleo. O início da exploração petrolífera venezuelana se desenvolveu a partir de uma demanda externa, sobretudo norte-americana, no contexto da Segunda Revolução Industrial e da expansão do motor a combustão. “Não é uma indústria que nasce de uma demanda interna venezuelana, mas de uma necessidade internacional, especialmente dos Estados Unidos”, explica.
Ao Jornal Opção, o historiador conta que o cenário começa a mudar com a chegada de Hugo Chávez ao poder, em 1999. Inicialmente, a relação bilateral não era conflituosa. “No início do chavismo, houve inclusive cooperação. Em 99, os EUA enviaram ajuda que foi aceita pelo governo venezuelano”, lembra.
Relação desanda a partir dos anos 90
O ponto de inflexão, segundo ele, ocorre durante o governo de George W. Bush, especialmente com a Guerra do Iraque. Chávez passa a reposicionar a Venezuela no cenário internacional ao atuar para reorganizar a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e defender a elevação do preço do barril. “Chávez percebe a Opep como espaço de atuação internacional e aproxima países como o Iraque. Isso tensiona diretamente a relação com os Estados Unidos”, afirma.
A partir daí, o embate ganha contornos cada vez mais ideológicos e simbólicos, com discursos duros em fóruns internacionais, como o episódio nas Organizações das Nações Unidas (ONU) em que Chávez afirmou que o púlpito “ainda cheirava a enxofre” após a fala de Bush. Apesar disso, durante os governos Bush e Barack Obama, o conflito permaneceu majoritariamente no campo retórico.
Piora com Trump
A escalada se intensifica de forma concreta no governo Donald Trump, com a adoção de sanções econômicas e bloqueios financeiros.
As sanções são um divisor de águas. Elas não existiam dessa forma nos governos anteriores e passam a estrangular a economia venezuelana, explica Zancope.
Nesse contexto, o petróleo volta ao centro da disputa, já que uma Petróleos de Venezuela S.A (empresa estatal) reestruturada, com tecnologia estrangeira, poderia retomar rapidamente sua capacidade produtiva, algo estratégico para os interesses energéticos dos Estados Unidos.
Para o historiador, o ataque atual não pode ser compreendido fora dessa longa trajetória. “Os sinais estavam dados. O elemento surpresa faz parte da estratégia militar, mas politicamente essa tensão vem sendo construída há mais de duas décadas”, conclui.
Violação de direitos internacionais
Para o internacionalista Lucas Vieira, a Venezuela passa, então, a reunir três vetores altamente sensíveis do ponto de vista geopolítico: vastas reservas energéticas, um discurso explícito de contestação à ordem internacional liderada pelos Estados Unidos e uma estratégia deliberada de diversificação de alianças, com aproximações de Rússia, China, Irã e Cuba. “Essa combinação transforma o país em um foco permanente de tensão regional e global, sobretudo em um contexto de crise prolongada de governabilidade e deterioração econômica”, avalia.
Os especialistas ressaltam que a crise venezuelana não pode ser explicada apenas por decisões recentes ou por fatores externos isolados. Trata-se de um acúmulo estrutural que envolve dependência extrema do petróleo, militarização progressiva da política, fragilização das instituições democráticas e crescente internacionalização do conflito interno. Nesse cenário, pressões externas — como sanções econômicas, ameaças diplomáticas ou ações militares — tendem menos a produzir estabilidade e mais a reforçar narrativas de cerco, radicalização interna e agravamento do sofrimento da população civil.
Do ponto de vista do Direito Internacional e da segurança regional, Lucas Vieira alerta que qualquer ação unilateral ou uso da força fora dos parâmetros da Carta das Nações Unidas representa um risco grave à estabilidade da América do Sul. “A experiência histórica mostra que estratégias de isolamento, coerção ou mudança forçada de regime tendem a aprofundar crises humanitárias, ampliar fluxos migratórios e corroer ainda mais as possibilidades de reconstrução institucional”, analisa.
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