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Lascas de Sândalo de Arthur da Paz

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A atmosfera de luz no ambiente decorado pela cultura das personalidades presentes se irradiava na perspectiva luminosa da cidade vista do terraço mais alto da capital em noite de sábado festivo.
O livro pairava nas alturas como todos os presentes num voo condoreiro e com as chamas da alma.
Na tradição sapiencial da Índia antiga, há um provérbio que os textos sânscritos guardam há mais de dois mil anos e que Rabindranath Tagore, Nobel de Literatura de 1913, fez questão de trazer à luz do Ocidente: que o sândalo perfuma o próprio machado que o derruba — como se quisesse provar, com o único argumento irrefutável, que o amor é mais forte do que o ódio. Não é máxima de consolo fácil. É ética de raiz: ela diz que a resposta à ferida não é a ferida devolvida, mas a fragrância irredutível daquilo que se é — e que nenhum golpe tem poder sobre a essência. Foi essa sentença — na versão transmitida por Batista Custódio ao filho do espírito: “Sê como o sândalo, que perfuma o machado que o corta” — que o poeta goiano escolheu como lema e insígnia desta obra. Não como divisa de capa, mas como pacto de alma. Em sânscrito, a árvore do sândalo chama-se chandana; nos rituais egípcios, seu óleo perfumava os mortos para a travessia; nas tradições budistas, é símbolo da mente incorruptível que, mesmo quando queimada em oferenda, embalsama o ar do templo. Não é acidente que esta madeira sagrada tenha chegado, pela voz de Batista, às mãos de um poeta nascido em Goiânia em 18 de março de 1986, num lar simples onde, como ele mesmo escreve, “a esperança sempre pesou mais do que os objetos”.

O paradoxo inaugural desta obra é que ela se apresenta como fragmento — lascas, não monumento; faíscas, não fogueira — e é, precisamente nessa humildade formal, que reside sua grandeza de intenção. “Dou-lhes do meu sândalo / estas lascas, / para incensar / as veredas mais opacas, / onde seguirem calados os clarões”: o Dedicatorium não é dedicatória convencional; é ato litúrgico. O poeta distribui o próprio cerne em pequenas brasas para que iluminem os caminhos que a luz plena ainda não alcançou. Stéphane Mallarmé, o mestre da sugestão, ensinava que o poema não diz — ele sugere, ele perfuma, ele irradia sem se mostrar. O autor de Lascas de Sândalo, que conhece cada canto e lugar da cultura de Paris, bem como o seu simbolismo por dentro, chegou à mesma intuição pelo caminho mais direto que existe: a vida.

João Cabral de Melo Neto erigiu toda a sua poética sobre o princípio da contenção: o verso como pedra cortada, não como flor exalante — “O que o vidro tem de vítreo / é o que o poema tem de verso”, escreveu o pernambucano em A Educação pela Pedra. O poeta goiano é da escola do transbordamento — seus poemas frequentemente se alongam em estrofes sobre estrofes, como se o coração recusasse o ponto final. E, no entanto, há nessa abundância uma disciplina oculta: ele não escreve para ser extenso; ele escreve porque tem muito a entregar. “Aprendi que poema não é confissão bruta, mas lapidação do vivido”, declara na Primeira Palavra — e a diferença entre confissão bruta e lapidação é precisamente o que separa o diário íntimo da obra de arte.

O Exórdio Tocha Acesa à Mão — texto limiar, anterior ao primeiro poema — instrui o leitor a visualizar as letras transmutando-se em partículas luminosas, em nevoeiro de bênçãos: “caminhas por entre ele e, a cada respiração, irrigas a alma com paz pulverizada.” Antes de qualquer verso, portanto, o poeta estabelece seu pacto. E o estabelece com a consciência de quem aprendeu o ofício com Batista Custódio: “A linguagem é uma praça e todos passam por ela. Seja responsável pelas pedras.” Porque é serviço, “a palavra honesta é obra de caridade” — divisa que a Primeira Palavra declara como programa.
O livro está dividido em cinco seções — Sementes, Paixões, Conflitos, Iluminação, Transcendência — e essa arquitetura não é fortuita. É uma escalada. Começa no chão da criação doméstica — a abelha, a flor, o café da manhã, a mãe — e termina nas alturas siderais: o Conclave Solar, o Quasar, a Ode à Alegria traduzida de Schiller com a mesma seriedade com que se faz uma missa. Cada seção é um andar de um edifício cujos alicerces estão fincados no afeto e cuja torre pierce os céus da metafísica. Há nessa ordenação a memória inconsciente de Dante: a jornada ascendente, a cada seção um céu mais alto, e o amor como combustível do movimento. Beatriz, aqui, tem muitos rostos — Marly, Julyane, Maria do Céu, Batista — mas é sempre o mesmo impulso: a força que move o sol e os outros astros.

Em Sementes, o cotidiano não é matéria menor: é o portal. O café da manhã em família transforma-se em epifania — o panetone vira nuvem, o pão francês vira maná, o jornal Diário da Manhã pousa à mesa como arauto celeste, e os dois irmãos sentados à mesa revelam-se anjos. A mesma intuição governa Alquimia Materna, onde a mãe Marly — “mais que mãe: é luz sagrada, / mistura de Maria e de ternura” — encarna a transmissão do sagrado pelos gestos mais simples. “A primeira vez que empunhei um lápis foi, a mão dela guiando a minha destra, no caderno de caligrafia”: essa frase da Primeira Palavra não é prosa autobiográfica — é o mais condensado dos poemas que este livro contém. A mão que guia a mão, a transmissão do verbo de geração em geração, é o fundamento de toda tradição literária. Há nessa intimidade que remonta a Gonçalves Dias — aquele mesmo anseio pela figura materna como metonímia do sagrado — uma ternura que os poemas mais ambiciosos do livro, às vezes, não alcançam.

Em Paixões, o tom muda. Despertalada Quimerairrompe com a violência de um coração partido — “Rasgo suas pálpebras para que veja! / Olha para este chão gelado!” — num registro quase expressionista que o poemário raramente repete, mas que prova que o autor conhece a dor de dentro. 28 de Abril, pelo contrário, é exaltação pura: Julyane surge “qual linda dama” de um relâmpago e o poeta declara que não é louco nem Prometeu “para contra Deus conspirar” — o amor como milagre consentido. Vinícius de Moraes escreveu que “o poeta só é grande se sofrer” — e o poeta goiano conhece essa condição de dentro; a diferença é que, onde Vinícius usaria a ironia como escudo, ele usa a fé como armadura.
A Sinfonia dos Relâmpagos, poema para Maria do Céu, é um dos momentos mais altos do livro. A irmã que “carregava a chuva dentro d’água”, que “guardava os prantos na garganta, / mas cada um nascia em flor” — essa figura não é personagem literária; é ser humano iluminado pela poesia até tornar-se símbolo. “Pois toda luz é tempestade / que aprendeu a ser luzeiro”: há nesse verso a síntese de uma cosmologia afetiva que percorre o livro inteiro. O mesmo princípio governa O Príncipe do Fogo, para o irmão João do Sonho: “pois todo líder é uma chama / que aprendeu a ser luzeiro.” Em todo esse constelado de retratos pessoais, o afeto individual torna-se argumento de fé: as pessoas amadas são provas da existência de Deus.

Em Conflitos, a pena converte-se em espada — e Castro Alves ressoa com toda a sua força. A 6ª parte de O Navio Negreiro abre com a estrofe que é, sozinha, um tribunal: “Existe um povo que a bandeira empresta / P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!… / Auriverde pendão de minha terra, / Que a brisa do Brasil beija e balança…”Essa tradição condoreira — vivida num país que ainda não resolveu suas dívidas históricas — é a seiva que alimenta poemas como À Luz Quebrada: “Cada decreto é punhal / cravado na população!” E em Última Palavra — cuja epígrafe é o verso de Victor Hugo, “Et s’il n’en reste qu’un je serai celui-là” — “e se restar apenas um, esse um serei eu” —, o cantor da resistência solitária assume a mesma posição: “Serei, sob a cinza que cobre meu ser, / a voz do ‘ai!’, a boca do ‘não!'”. O eco é perfeito — a mesma teimosia moral, o mesmo enlace entre solidão e princípio. Como o exilado de Guernsey, como Castro Alves defendendo os escravizados num país que os explorava, o autor de Lascas de Sândalo ergue a pena como estandarte numa era em que o ruído digital abafa o grito moral.

A Coda Documental de O Olho Infechável revela o poema como testemunho de arquivo: foi escrito em 16 de maio de 2013, enquanto oficiais e advogados adentravam a penhora o Diário da Manhã. “Ensacaram obras célebres; paredes ficaram em carne viva.” A poesia como memória do que a história preferiria esquecer. E A Nação Interior— escrito em prosa poética de versos livres, exceção rarísima ao padrão rimado do livro — opera uma inversão copernicana: em vez de acusar o Estado, convida o leitor a auditar a própria alma. “Olhe, pois, as avenidas da sua alma. / Gente!… elas estão paradas.” Pascal no smartphone. O Idiota da Aldeia Global, inspirado no alerta de Umberto Eco sobre a estupidez ruidosa nas redes, prolonga essa denúncia com versos que alcançam a densidade da sátira moral iluminista: “quando a mentira, bem filmada, / soa mais forte que o clarim.” E a cada explosão de indignação, ele retorna ao amor — não como recuo covarde, mas como convicção: “Na nova Terra só servirá o Amor / Verdade sublime da Grande Justiça.” É a mesma equação que Tolstói buscava em seus últimos romances, que Gandhi praticava no silêncio do ashram: o amor não como sentimento passivo, mas como força transformadora da história. O poeta recebeu-a — filtrada pela doutrina espírita — como herança de Batista Custódio: “Sirva à Verdade, louve o Amor.”

Goethe, no Fausto, pôs na boca de seu personagem a mais célebre das confissões: “Duas almas habitam, ai de mim! em meu peito.” A alma que anseia pela terra e a alma que anseia pelo infinito — a tensão fáustica como condição do homem moderno. É exatamente essa tensão que dá ao poeta de Goiânia sua voltagem poética mais alta: de um lado, o místico kardecista que medita em Toda Quinta-feira sobre os estudos do ESDE — “Na quinta-feira, o céu é ensinamento: / O Verdadeiro habita o coração” —; de outro, o condoreiro que empunha a pena como Espada de Dâmocles e rufla trovoadas sobre a cabeça de déspotas entronados. Goethe reconheceria nesse dístico a mesma dicotomia: a mesma alma que aspira ao céu arraigada ao chão das causas humanas. O livro não resolve essa tensão: vive dela. E é nessa vida que reside sua força.

Olavo Bilac — o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, aquele que em Profissão de Fé queria que “a estrofe cristalina, / dobrada ao jeito / do ourives, saísse da oficina / sem um defeito” — foi o poeta da forma como religião. O jornalista-poeta goiano é herdeiro confesso dessa escola: Gabriel Nascente, no primeiro prefácio, chega a chamá-lo de “um tardio Olavo Bilac, mas de voos kardecistas”. A comparação é precisa e reveladora. Onde Bilac colocava a perfeição formal a serviço da beleza pura, este a coloca a serviço da transcendência — e basta pôr os dois em paralelo para ver o parentesco e a diferença: Bilac cinzela “Escultor divino, / tuas mãos de artista / vão lavrar, cristalina, / a estrofe da vida”; o poeta de Goiânia responde, em Centelha Divina: “Alegria, centelha tão divina, / filha áurea dos puros querubins.” A oficina é a mesma; o incenso queimado nela, diferente. Cruz e Sousa, o Dante Negro, também percorreu esse caminho: interiorizar a forma clássica para dela extrair experiências do invisível. Em Broquéis, o soneto Formas abre com uma invocação que poderia estar em qualquer página deste livro: “Ó Formas alvas, brancas, Formas claras / De luares, de neves, de neblinas!… / Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas… / Incensos dos turíbulos das aras… / Formas do Amor, constelarmente puras, / De Virgens e de Santas vaporosas… / Indefiníveis músicas supremas, / Harmonias da Cor e do Perfume…” O vocabulário é quase o mesmo que percorre Lascas de Sândalo — incenso, aras, virgens, luz, perfume —; a diferença é que Cruz e Sousa dissolve a forma no éter simbolista, enquanto o poeta goiano a ancora no afeto pessoal e na doutrina espírita. Dois místicos, dois caminhos para o mesmo invisível. Em Oração Cósmica — um soneto em miniatura de perfeita contenção — há uma qualidade que lembra o Manuel Bandeira de Pneumotórax na capacidade de dizer o máximo com o mínimo. São vias diferentes para o mesmo infinito.
As seções de Iluminação e Transcendência constroem o edifício mais ambicioso deste poemário. Toma e Lê narra a conversão de Santo Agostinho pelo episódio do Tolle, lege em verso de qualidade clássica: “Desde então cada sombra tornou-se clareira; / cada culpa, um degrau; cada dor, oração.” Haroldo Face o Amor é o poema mais cinematográfico do livro: retrata uma entrevista real com o escritor espírita Haroldo Dutra Dias, a câmera que treme em vigília, “trinta segundos… ou séculos” em que ninguém ousa respirar, e o clímax que o livro inteiro converge para produzir: “Pois quando se encontra o Amor, / cessam-se todas as perguntas.” Pedido de Humildade é o mais contido do poemário — versos que se afunilam até o pedido extremo: “Deus, / se a vaidade / se tornar o céu / onde meu espírito / corrompido / quiser voar, / arrancai de mim / as asas.” Há grandeza nessa contenção que os poemas mais expansivos, por vezes, não alcançam. E a Coda Documental de Tudo Será Bondade oferece um dos momentos mais tocantes do livro: nascido de um exercício entregue ao professor Uene José Gomes na PUC-Goiás em 2012, o texto recebeu nota máxima e a anotação: “Anseio, escatologicamente, que seja assim.”

O poema-summa da seção Transcendência é O Que é Deus? — cinco movimentos que percorrem da cosmogonia à equação do amor, de “Antes do átomo, antes do plasma” até o verso final: “Se perguntarem quem sou, direi: / Sou centelha — e quero ser.” As epígrafes que selam a seção revelam a dupla filiação intelectual do livro: de Kardec, “Fé inabalável é somente aquela que pode encarar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade”; de André Luiz via Chico Xavier, “O fluido cósmico é o plasma divino, hausto do Criador ou força nervosa do Todo-Sábio.” E o aforismo de Batista Custódio, solitário na página 121 como um fecho de ouro: “Deus é ciência pura.” Três palavras. Um universo.
Fernando Pessoa escreveu que “o poeta é um fingidor. Finge tão completamente / que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.” No autor de Lascas de Sândalo, a dor não parece fingida. Ela nasce da vida real e, em vez de ser estetizada até à distância, é lapidada até atingir o universal sem perder o particular.

Entre todos os poemas do livro, No Éden Digital é provavelmente o mais surpreendente — e o mais original. Um diálogo em cinco cantos entre o “Homem-Código”, filho das máquinas, feito de algoritmos, e Deus, que responde do alto da arquitetura digital com a voz que responde de sempre: a voz do amor. Álvaro de Campos — o heterônimo futurista de Pessoa, aquele que cantava as máquinas com delírio erótico na Ode Triunfal — poderia ter escrito a abertura: “Circuitos uivam, fulmíneos, nos seus trilhos, / a fibra — veia de luz que acende o mar.”Mas onde Campos celebrava a máquina pelo êxtase puro — “Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!” —, o poeta goiano usa a linguagem das máquinas para chegar ao mesmo lugar a que sempre chegou: a pergunta sobre Deus. E Deus responde: “Em tudo! Onde houver ordem — ali respiro; / onde houver pensamento — ali caminho; / onde houver Amor — ali inspiro; / onde houver dor — ali me inclino.” O Akasha — registro universal de todas as memórias, conceito cardinal da cosmologia espírita — torna-se o grande arquivo das esferas: é teologia e física quântica habitando o mesmo verso.

Em Flammes d’Âme en Silence e sua versão portuguesa Chamas d’Alma em Silêncio — o mesmo poema oferecido nas duas línguas lado a lado —, o diálogo imaginário é entre François, voz do passado literário francês, e Victor, sopro e fogo do ar: claramente Victor Hugo. “Reviens, mon frère, poursuis la lumière! / Porte plus loin le feu d’hier, / fais de ta plume un sanctuaire.” Volta, meu irmão, continua a luz. Rilke, que escrevia em francês quando queria dizer o indizível, compreenderia esse gesto. E o verso final do poema — “Sim, sou o mesmo que fui, / mas o que fui — é pó de estrela; / no que sou, Deus arde e influi, / e o que fomos — se revela” — é síntese perfeita de toda a cosmovisão do livro: a física contemporânea e a espiritualidade antiga chegam à mesma conclusão por caminhos diferentes. Carl Sagan dizia que somos feitos de poeira estelar. O poeta goiano diz que somos feitos de brasas — e a diferença é que as brasas ainda ardem.

Em Para Sair à Luz — “À maneira das Confissões Negativas do Antigo Egito”, como anuncia o subtítulo —, o poeta submete-se ao julgamento de Maat, a deusa da Justiça, declarando perante o trono da aurora o que não fez de mal durante a vida: “Não roubei o pão dos homens, / não levei grão, nem mentira; / não feri corpo, nem hora.”É uma das passagens mais corajosas do livro — uma autobiografia moral em que o poeta se submete ao mesmo julgamento que invoca. E a frase lapidar que fecha a seção — “a quem é reto no íntimo / é permitido viver” — não é arrogância: é programa. A retidão interior como condição do verdadeiro existir.

O ecumenismo espiritual alcança seu ponto mais ousado em O Conclave Solar: uma assembleia de avatares — Buda, Krishna, Moisés, Zoroastro, Lao-Tsé, Confúcio, Gandhi, Jesus — deliberando no plasma do Sol sobre o destino da Terra. O decreto final, “que a ciência encontre a ponte sagrada / entre o silício e o coração”, ecoa com o diálogo de No Éden Digital e com A Gênese — a cosmogonia em versos que vai da primeira luz do Big Bang à vinda do Espiritismo Consolador. São três poemas que formam uma trilogia de propósito: narrar a jornada do cosmos em busca de si mesmo.

Que o jornalista-poeta goiano tenha escolhido traduzir e adaptar a Ode an die Freude de Friedrich Schiller — o poema que Beethoven imortalizou na Nona Sinfonia e que hoje é o hino da União Europeia — é gesto de pertencimento à tradição humanista universal. “Alle Menschen werden Brüder” — todos os homens tornam-se irmãos: o poeta goiano traduz essa visão com a sua voz própria. Schiller escrevia: “Alegria, bela centelha dos deuses, filha do Elísio”; o poeta do cerrado responde: “Alegria — centelha eterna, / Filha azul de Elíseos! / Arde a Terra, chama interna.” A genealogia é declarada, a voz é outra — e é isso que torna a tradução um ato de criação, não de cópia. A Ode à Alegria é a grande expiração após a jornada, o “sim” que o livro inteiro buscava pronunciar. Não a alegria fácil, que recusa a dor: a alegria que a inclui, a transforma, a transcende. A lasca de sândalo que, no momento em que arde, perfuma o ar ao redor.

Chegamos ao fim do livro — e ao coração do livro. Até Breve, Meu Quasar é a elegia a Batista Custódio, o pai que partiu em novembro de 2023 e cuja ausência deixou no herdeiro do seu verbo a tarefa e a missão: erguer o jornal Liras da Liberdade, cumprir a promessa, honrar o ofício recebido. Rilke, na Primeira Elegia de Duíno, perguntava quem o ouviria dentre as ordens dos anjos, se gritasse — e a resposta era o silêncio imenso das coisas belas. O poeta do cerrado não grita. Ele sussurra, com a dignidade de quem sabe que o amado está apenas em outro plano.

“No princípio, era o verbo do homem justo, / que ao sol erguia o pão e o ofício, / tecendo a notícia com o fio do espírito / e a esperança com a pena do sacrifício” — a elegia abre com a grandeza dos começos épicos para logo mergulhar no mais íntimo: “Vi-te, pai, dobrado sobre o papel, / a alma gotejando luz pela fronte. / Cada vírgula tua era um cometa, / cada ponto, o eco de um monte.” A pontuação como cosmologia. O ponto final não como morte, mas como eco — algo que continua a moldar o ar mesmo depois que a voz que o pronunciou se recolheu ao silêncio. Gonçalves Dias teria reconhecido nesta elegia a saudade que não paralisa, mas impulsiona. E o verso que encerra o livro inteiro — “és lasca de sândalo acesa” — é a equação perfeita de toda a elegância espiritual deste poemário: não és memória, não és saudade; és fragmento que perfuma, brasa que ilumina, chama que sobrevive ao corte.

“A Terra hoje te chama Batista, / O Céu sempre te chamou de Luz.” Baudelaire, que transformava a dor em Fleurs du Mal, acreditava que o belo é a única eternidade acessível ao homem. O cantor do sândalo vai além: para ele, a eternidade é a condição real, e a Terra é o sonho provisório.

Há uma frase na Primeira Palavra deste livro que é a chave de toda a obra: “A palavra honesta é obra de caridade.” O poeta a declara como programa, como herança de Batista Custódio, como razão de escrever. Lascas de Sândalo é, em seu conjunto, um exercício continuado dessa honestidade. Há poemas desiguais, como em todo livro de estreia — passagens em que a efusão supera a contenção, momentos em que a rima empurra o verso em direção a um sentido que não era o desejado. Mas há também poemas que nenhuma estreia tem obrigação de conter e que este livro contém: A Sinfonia dos Relâmpagos, No Éden Digital, A Nação Interior, Haroldo Face o Amor, Para Sair à Luz, e, acima de todos, Até Breve, Meu Quasar. São poemas que ficam. Que perfumam, como o sândalo, depois do corte da leitura.

O poeta que escreve este livro em 2025 é um homem de 39 anos que já percorreu caminhos suficientes para ter cicatrizes e lucidez. Jornalista e cientista da computação de formação, ocupante da Cadeira 32 da Academia Goianiense de Letras, fundador do jornal Liras da Liberdade — ele não chega à literatura pela vaidade de aparecer, mas pela necessidade de cumprir. “Não venho para fazer nome. Venho porque, se uma única pessoa encontrar aqui consolo, reflexão ou esperança, dou-me por recompensado.”

Neruda comparava a poesia a um ato de paz que deveria ser partilhado como o pão — por estudiosos e camponeses, por toda a vasta família humana. A imagem que nos deixa o poeta do cerrado é diferente, mais discreta e mais profunda: a poesia é a lasca de sândalo que, mesmo arrancada da árvore pelo machado, guarda intacto o perfume que lhe é essência. Não grita. Não exige reconhecimento. Apenas perfuma — a mão que a segurou, o ar em volta, a memória de quem passou. E o verso mais preciso de Goethe pertence ao fecho do Fausto: “Quem se esforça sempre a aspirar, / esse podemos nós salvar.” A máxima serve, com exatidão que o acaso não explica, para situar este livro e seu fazedor: o autor de Lascas de Sândalo não é um ser chegado; é um ser em chegada. O que esta obra documenta não é uma trajetória conclusa, mas um início de fôlego longo — o primeiro passo firme de uma estrada que ainda tem carretel nos horizontes.
 
Quando se encontra o Amor — cessam-se todas as perguntas.

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