Passear com gatos: bem-estar animal ou trend das redes sociais? Especialistas detalham cuidados para a saúde felina
Você já se deparou com um gato usando coleira e caminhando tranquilamente ao lado do tutor em um parque ou calçada? Embora pareça algo incomum, isso se tornou frequente nos últimos meses. Afinal, as redes sociais explodiram com vídeos de gatos aventureiros desbravando desde a neve até praias, e até mesmo voando de avião.
Contudo, uma pergunta não quer se calar: essa nova tendência é realmente saudável para o seu filho de quatro patas ou apenas uma busca por cliques no TikTok e Instagram?
Para responder a essa questão, o Jornal Opção entrevistou duas especialistas da área felina. A médica veterinária e professora do curso de Medicina Veterinária da Estácio Goiás, Tábata Morais, juntamente com a mestre em biologia animal e especialista em comportamento e bem-estar felino da CatGyn, Monik Oprea, detalham os prós e contras dessa prática.
Adianto que a resposta ideal é priorizar a saúde e a vida do animal, e não a fama momentânea na internet.
Passeio sob medida: benefícios existem, mas exigem preparo
Em primeiro lugar, é necessário entender que a atividade não é intrinsecamente negativa. Durante a entrevista, a médica veterinária Tábata Morais afirmou que “vê o passeio como algo positivo. O gato também tem interesse e curiosidade. Ele gosta de passear, só que de uma forma que ele esteja acostumado”.
Mas ela alerta que, como o gato é um animal mais assustado e arisco, a adaptação correta é indispensável para que a experiência seja saudável.
Para isso, o tutor precisa começar o treinamento dentro de casa, usando uma coleira própria para gatos. Morais explica que “o gato tem uma facilidade maior de se soltar de uma coleira. Então, tem coleiras específicas que são mais seguras pro animal”. Além disso, ela recomenda que o felino se acostume primeiro com o acessório andando pelos cômodos.
Posteriormente, o passeio deve ser gradual, iniciando em ambientes calmos e silenciosos, pois os felinos tendem a se assustar com facilidade.
A especialista em comportamento felino, Monik Oprea, complementa essa visão ao destacar que “essa questão de levar o gato para passear é um pouco controversa porque parece que tá meio na moda”.
Ela explica que os responsáveis precisam refletir se a atividade será benéfica ou estressante para o animal. “Para a maioria dos gatos pode ser uma questão muito desafiadora, muito estressante, que pode abalar um pouquinho o bem-estar emocional deles se a gente não tomar muito cuidado”, ressalta Oprea.
Antes de qualquer coisa, ela recomenda entender a personalidade do felino. “O gato é um animal de rotina. Se você começar a passear com ele, você vai ter que fazer isso todos os dias, não importa se é feriado ou se está chovendo.”
Quando o passeio faz mal? Especialistas listam contraindicações
Antigamente, as pessoas tinham o costume de não levarem gatos para passear, mantendo-os fechados em casas ou apartamentos. Contudo, Tábata Morais lembra que, se a residência não for telada, o felino sempre tentará sair por conta própria para explorar.
Apesar desse instinto natural de caça, ela não recomenda a saída livre. “Porque hoje a gente sabe que tem várias doenças, o animal pode se machucar, então não é recomendado”, afirma.
Dessa forma, o passeio com guia é uma alternativa mais segura. Morais ressalta que a indicação exige o animal com a cartela de vacinação em dia, vermifugado e com proteção contra pulgas. Ademais, ela alerta sobre áreas com muitos cães soltos. “Tem que tomar esse cuidado, porque tem muito cão que às vezes tende a avançar no gato. Evitar esses lugares que são muito agitados, que o gato também vai se estressar”, orienta.
Monik Oprea, por sua vez, ressalta que, antes de qualquer coisa, o tutor precisa avaliar se o gato é extrovertido, calmo e não se assusta facilmente. “Se o animal ter características de assustado, o passeio para ele vai ser péssimo, mesmo no carrinho de pet”, diz.
Ela cita alguns sinais bem visíveis de desconforto: o felino se encolhe, fica com as pupilas dilatadas, tenta se esconder ou até paralisa. “Você tá achando que o seu gato não tá confortável, tá com um mínimo de desconforto, você já pega ele e volta pra trás, porque não vai dar certo”, ensina.
Idade ideal e clima: fatores que sentenciam o sucesso
Quanto à faixa etária adequada, as especialistas concordam: quanto mais novo, melhor. Tábata Morais recomenda começar com filhotes, logo após a conclusão do protocolo vacinal. “Quanto mais novo o animal, mais fácil ele se adapta. Se às vezes você pegar um gato de 8, 10 anos, vai ser mais difícil, mais lenta essa adaptação”, compara.
Monik Oprea detalha ainda o chamado “período sensível”, que vai dos 10 dias até cerca de 7 ou 8 semanas de vida. “Essa é a fase ideal para você apresentar para o gato todos os estímulos positivos. Se você quiser que ele se acostume com outras pessoas, vá em algum lugar, esse seria o momento”, explica. Ela ressalva que é possível ensinar gatos mais velhos, embora o processo exija mais tempo e paciência.
Outro ponto são as condições climáticas. Passear com gato requer atenção redobrada com a temperatura, pois felinos e cães são mais sensíveis que os humanos. Andar sob o sol forte pode causar queimaduras nos coxins (almofadinhas das patas), desidratação e problemas de pele.
Da mesma forma, o frio intenso deixa o pet vulnerável a gripes e complicações cardíacas. Além disso, não se recomenda passear na chuva, para evitar doenças de pele.
Alternativas ao passeio: enriquecimento ambiental dentro de casa
As especialistas também oferecem uma solução para tutores que moram em áreas urbanas movimentadas ou possuem gatos mais arredios. Monik Oprea revela que, na maioria das consultorias que realiza, ela nunca orientou um responsável a começar a passear. Pelo contrário, muitos a procuram para ensinar o felino a parar de querer sair. “As orientações são mais para enriquecer o ambiente dentro de casa”, afirma.
Segundo Oprea, o gato dentro de casa não pode ficar sem atividades. É preciso investir em arranhadores, brincadeiras e estímulos externos trazidos para a vivência do animal. “Se o ambiente for enriquecido, ele não precisa sair pra passear, ele fica super feliz dentro de casa e seguro”, garante. Tábata Morais corrobora ao lembrar que, sem estímulos, o animal pode ficar triste, sedentário e ter ganho de peso.
Atualmente, a demanda por passeios com gatos aumentou, mas o número ainda é baixo. Morais estima que apenas 5% dos tutores passeiam com os seus gatinhos. “Eu tenho inclusive bastante casos de gatos que antes passeavam sozinhos, e depois que o tutor passou a telar a casa, o animal ficou mais triste e desenvolveu doenças. Tudo isso mostra que ele realmente precisa dessa atividade”.
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