O fim de uma das disputas empresariais mais longas do país teve mais um capítulo encerrado na semana passada. O MPF (Ministério Público Federal) pediu o arquivamento de uma investigação que apurava suposta espionagem relacionada à Eldorado Brasil, a fábrica de celulose em Três Lagoas (MS). De acordo com reportagem da Folha de S. Paulo, a investigação sobre possível hackeamento de sistemas para obtenção indevida de aproximadamente 70 mil e-mails remonta a 2019, período em que a J&F, controlada pelos irmãos Joesley Batista e Wesley Batista, enfrentava a Paper Excellence, do empresário Jackson Wijaya, em uma disputa pelo controle da indústria em Mato Grosso do Sul. O inquérito se estendeu por quase sete anos, mas acabou sem acusação formal. O MPF entendeu que as evidências digitais reunidas ao longo da apuração não são confiáveis, apontando falhas na preservação e rastreabilidade dos dados desde o início das apurações. Entre os problemas identificados, estão inconsistências nos códigos hash (espécie de identificação única usada para garantir a autenticidade de arquivos) em laudos produzidos tanto por uma empresa contratada pela J&F quanto pelo Instituto de Criminalística de São Paulo. Essas divergências impediram a validação do material analisado. O MPF também investigou uma possível invasão aos sistemas da empresa CTI NET Soluções em Conectividade e Informática, com sete investigados. Porém, outro ponto que comprometeu o caso foi a participação de representantes da própria J&F e de uma consultoria por ela indicada, a Ventura Enterprise Risk Management, durante intervenções da polícia. Diante dessas fragilidades, o órgão concluiu que não há como prosseguir com o caso. Em 2017, a J&F firmou acordo para vender uma fatia inicial de 49,41% da Eldorado à Paper Excellence, com previsão de transferência total posterior mediante cumprimento de cláusulas contratuais. As divergências começaram no ano seguinte, com acusações mútuas de descumprimento do acordo, o que levou a uma longa batalha judicial e arbitral. Ao longo dos anos, o caso passou por diferentes instâncias e incluiu disputas no Brasil e no exterior, além de questionamentos sobre a legalidade da aquisição de terras por empresas estrangeiras. Em paralelo, surgiu a suspeita de acesso indevido a comunicações internas da J&F. A confusão chegou ao fim apenas em maio de 2025, quando as partes firmaram um acordo definitivo: a J&F pagou US$ 2,64 bilhões para recomprar a participação que estava com a Paper Excellence, consolidando o controle integral da Eldorado.