Com quase 20 mil visualizações em menos de 24 horas, um vídeo publicado por um professor de História em Campo Grande, nesta quinta-feira (27), provocou discussão nas redes sociais ao defender uma ideia simples, mas que muita gente ainda resiste em aceitar: a cultura de Mato Grosso do Sul nasce justamente da mistura. Victor Hugo Xavier Flandoli, de 36 anos, questiona a busca por uma suposta “originalidade” cultural no Estado. Para ele, o raciocínio não se sustenta. “Se você não é de fora, seus pais são. Se não, seus avós são”, afirma, ao destacar que a formação da população sul-mato-grossense está diretamente ligada a processos migratórios recentes. A repercussão foi rápida. Em menos de um dia, o conteúdo acumulou milhares de visualizações, centenas de comentários e compartilhamentos, sinalizando que o tema toca num ponto sensível: identidade. Em entrevista ao Campo Grande News , o professor reforça que o argumento não é opinião solta. Ele se apoia em dados históricos, já que Campo Grande tinha cerca de 1.500 habitantes em 1911. Dez anos depois, já eram 10 mil. Um século para frente, a cidade se aproxima de 1 milhão de moradores. O salto não se explica sozinho. Foi puxado por migração. Segundo ele, esse crescimento ajuda a entender por que a cultura local não é “pura”, nem poderia ser. “A gente é um estado recente. Nossas práticas culturais vieram de outros lugares. Isso não é fraqueza, é a base da nossa identidade”, resume. O ponto central aparece quando ele tenta traduzir essa mistura no cotidiano. “Eu acho que tem duas coisas bem interessantes. A primeira é esse aspecto do multiculturalismo, falar que a gente é uma colcha de muitos retalhos diferentes, com diferentes referências culturais”, afirma. A definição ajuda a entender o que se vê no dia a dia. No mesmo espaço, convivem influências indígenas, árabes, japonesas, paraguaias, bolivianas e de outras regiões do Brasil. Na prática, a cultura local se forma justamente dessa sobreposição. No mesmo dia, uma pessoa pode tomar chimarrão, consumir sopa paraguaia, almoçar comida japonesa e terminar com churrasco, sem qualquer contradição. Outro ponto levantado por ele é geracional. Durante anos, Campo Grande carregou a fama de “não ter cultura”. Segundo o professor, isso vinha de uma leitura equivocada. “As pessoas não entendiam que é justamente a junção de várias culturas que forma o orgulho de ser campo-grandense e sul-mato-grossense”, afirma. Agora, segundo ele, esse entendimento começa a mudar, principalmente entre os mais jovens, que já enxergam essa diversidade como parte da identidade local.