O Nobel que o Brasil levou, mas que, por capricho ou ignorância, nunca valorizou
Em 1960, o Brasil ganhou o prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, mas acredite, ninguém ligou. A história do único Nobel que o país recebeu, começa durante a Segunda Guerra Mundial, na Inglaterra. Os hospitais, por toda Grã Bretanha, estavam lotados de soldados com queimaduras gravíssimas e os transplantes de pele falhavam porque não havia compatibilidade após os enxertos. E, por isso, o número de baixas só aumentava. Até que um médico resolveu se aprofundar no tema pra tentar entender porque havia tanta rejeição após essas cirurgias. E o que ele descobriu, mudou, para sempre, a história da saúde mundial.
Peter Brian Medawar nasceu em Petrópolis, cidade imperial do Rio de Janeiro, em 1915. Era filho de pai libanês e mãe inglesa. O doutor Brian, como era chamado, viveu no Brasil até os 15 anos, quando mudou-se para a Inglaterra para estudar e foi por lá, na Universidade de Oxford, que se formou em medicina.
Durante as pesquisas, o médico e cientista chegou à conclusão que não foi a técnica cirúrgica com aplicação de enxertos de pele sobre sobre queimaduras de terceiro grau, que provocou a morte de centenas de sobreviventes de guerra dentro dos hospitais britânicos, mas o sistema imunológico deles.
A pesquisa abordou o tema da rejeição, que muitas vezes pode acontecer após transplantes de órgãos e que, também, poder acontecer após os enxertos. A pele do corpo é classificada como o maior órgão do ser humano. De acordo com o pesquisador, o corpo aprende, ainda no desenvolvimento embrionário, a distinguir corpos estranhos ao seu. Quando um tecido é transplantado, o sistema imunológico, reage. Não havendo compatibilidade, o corpo rejeita. Trata-se de uma resposta automática que Medawar classificou como “tolerância imunológica adquirida”.
Foi essa descoberta que abriu as portas para o que veio depois: transplante de órgãos vitais como coração, fígado e rins. Hoje, mais de um milhão de transplantes são realizados no mundo. E cada um deles carrega a marca deixada pelo médico e pesquisador brasileiro que se recusou a aceitar a imprevisibilidade do corpo humano.
Em 1960, o Comitê Nobel reconheceu a importância da descoberta científica realizada por Peter Brian Medawar dando a ele o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia daquele ano. O médico brasileiro foi condecorado com o maior prêmio da ciência mundial. O biólogo evolucionista e maior historiador da ciência, Stephen Jay Gould, chegou a dizer que Medawar foi o homem mais inteligente que conheceu. Richard Dawkins, escritor e biólogo, colocou doutor Brian no panteão dos grandes escritores científicos. O Brasil o chamou de britânico.
Peter Brian Medawar, o único britânico-brasileiro laureado com o Prêmio Nobel, quando completou 18 anos, mesmo já morando na Inglaterra, foi convocado ao alistamento militar obrigatório no Brasil, mas pediu dispensa do serviço militar acionando seu padrinho, Joaquim Pedro Salgado Filho, então Ministro do Trabalho no governo do general, Eurico Gaspar Dutra que, pessoalmente, exigiu que ele renunciasse à cidadania brasileira. Medawar passou a vida toda lamentando a decisão do general. Quando foi nomeado para o Nobel de medicina dedicou o prêmio ao seu país de origem, o Brasil. Disse: “ A mente humana trata uma nova ideia da mesma forma que o corpo reage à uma proteína estranha, simplesmente rejeita”. Coincidências do acaso, o homem que descobriu os efeitos da rejeição na ciência, foi rejeitado por um país que nunca soube reconhecê-lo.
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