Menino que usou farda nazista em festa de Medicina foi estimulado por familiares, revela investigação
A repercussão nacional das imagens de um adolescente de 13 anos usando uma farda associada ao regime nazista durante o baile de formatura do curso de Medicina da Faculdade de Enfermagem e Ciências da Saúde (Facene), em Mossoró (RN), revelou indícios de que o episódio não foi um ato isolado ou espontâneo. Levantamento feito a partir de postagens antigas nas redes sociais indica que o jovem foi exposto, ao longo do tempo, a estímulos e referências simbólicas dentro do próprio núcleo familiar.
As imagens, que circularam amplamente no domingo (11), mostram o adolescente com vestimenta inspirada em uniformes da Alemanha nazista — camisa cinza com insígnias no peito e nos ombros, calça verde-acinzentada, botas pretas de cano alto — além de realizar um gesto associado à saudação do regime de Adolf Hitler. O cenário era o baile de formatura de Medicina, evento privado que reunia cerca de duas mil pessoas.
Após a viralização do caso, internautas passaram a resgatar publicações antigas de familiares do garoto. Uma das mais citadas envolve a médica Natália Lima, tia do adolescente, que em registros anteriores elogiou um colar usado pelo sobrinho. O objeto, tratado de forma trivial na postagem, corresponde à cruz de ferro — condecoração militar historicamente apropriada pela iconografia nazista. Em outra publicação, o garoto foi descrito por ela como “mini gênio”, em um contexto em que referências visuais ao regime já apareciam em seu perfil.
Natália Lima é filha de Mestre Adamir, um dos fundadores da União do Vegetal (UDV), grupo religioso que, anos depois, passou a ser citado em denúncias e investigações envolvendo teses eugenistas, ideias de supremacia branca e o uso político da ayahuasca. Em publicações antigas, a médica também compartilhou conteúdos ligados ao esoterismo, ocultismo e manifestações de simpatia pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump.
Além do histórico virtual, relatos indicam que a família teve papel ativo no episódio ocorrido no baile. Segundo testemunhas, o adolescente entrou no evento vestindo roupas comuns e se trocou dentro do salão, com conhecimento e facilitação de familiares. Há ainda a informação de que um parente tentou incentivar uma mulher a reproduzir a saudação nazista enquanto o garoto posava para fotos fazendo o gesto diante das câmeras.
Depois da repercussão, diversos perfis ligados à família foram apagados ou colocados em modo privado. O próprio perfil do adolescente, que também foi retirado do ar, trazia na descrição a frase “Ein Volk, ein Reich, ein Führer” (“Um povo, um Império, um Líder”), lema diretamente associado à exaltação de Adolf Hitler.
A comissão de formatura afirmou que só tomou conhecimento da situação após o evento. Em comentário publicado nas redes sociais, a presidente do grupo disse que os formandos ficaram “estarrecidos” com o ocorrido. Segundo ela, se a caracterização tivesse sido percebida durante a festa, o adolescente e seus responsáveis teriam sido retirados imediatamente do local, por se tratar de conduta criminosa. A organização alegou que o grande número de participantes dificultou a identificação imediata, e uma estudante confirmou que o garoto se trocou já no interior do evento.
No Brasil, a apologia ao nazismo é crime previsto na Lei 7.716/1989, que tipifica a divulgação de símbolos, emblemas e gestos associados ao regime como prática discriminatória. Quando envolve menores de idade, a apuração ocorre sob as normas do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), podendo resultar em medidas socioeducativas direcionadas ao adolescente e responsabilização dos responsáveis legais.
Diante da pressão pública, o jovem divulgou um vídeo pedindo desculpas. A gravação foi publicada em uma conta no Instagram com autorização dos pais. No depoimento, ele afirma que costuma se fantasiar com frequência e que adquiriu o traje em uma feira. Disse ainda que já havia se vestido como personagens históricos e fictícios, como Napoleão Bonaparte, Jason e Capitão América, e que acreditou estar usando “apenas mais uma fantasia”.
O adolescente declarou que não compreendia a gravidade do símbolo e que só tomou consciência do erro após a reação pública. No vídeo, pede desculpas às pessoas que se sentiram ofendidas e solicita uma nova chance. “Eu estou errado, mas não sou um menino assim. Eu sou um menino bom”, afirmou.
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