Milei anuncia "estanflação" e põe culpa na esquerda
Argentinos experimentarão o choque do estancamento econômico acompanhado de hiperinflação, por um período que deverá, segundo Milei, durar entre 18 e 24 meses
O tranco que o novo presidente argentino, Javier Milei, promete dar na economia produzirá a combinação mortífera de estancamento com inflação – “Estanflação” – novo neologismo econômico que a direita cria para culpar a esquerda pelo aprofundamento da crie econômica no país que governará nos próximos quatro anos, se o colapso não interromper normalidade democrática.
Sem se encontrar com o presidente americano, Joe Biden, o presidente argentino acaba de retornar dos Estados Unidos onde se encontrou com as autoridades monetárias e fiscais americanas que recomendam o novo recado de Washington. A orientação é largamente conhecida pelos países latino-americanos dependurados no FMI e no Banco Mundial, carentes de dólar para fechar suas contas externas. Diante desse diagnóstico, o presidente Milei lança o novo neologismo econômico sob o argumento de que não “hay plata”. A alternativa, segundo ele, é cortar gastos e buscar novos investimentos pela via neoliberal conhecida: privatizações do patrimônio público.
Durante a campanha eleitoral, Milei não deixou dúvida: venderá empresas de petróleo e privatizará ensino e saúde, na linha da mercantilização dos serviços públicos por meio de fundos de investimentos internacionais, na linha recomendada pelo Banco Mundial.
Dessa forma, nos próximos dias, como preanuncia o novo ministro da Fazenda, Luis Caputo, ocupante da pasta no ex-governo Macri, a sociedade experimentará o choque do estancamento econômico acompanhado de hiperinflação, por um período que deverá, segundo o presidente Milei, durar entre 18 meses e 24 meses.
ESTANFLAÇÃO x DITADURA - São sombrias as expectativas econômicas e políticas na Argentina, levando em conta o histórico contemporâneo. O desajuste se acelera a partir de 1976, início da ditadura Rafael Videla, quando o PIB cai 25% e a inflação dispara para 400%, depois do governo democrático peronista de Maria Estela Martinez Peron. A deterioração democrática ganhou velocidade dois anos antes em 1975 quando a inflação registrou 182%. Era a primeira vez em que ultrapassava a casa dos 3 dígitos, 113%, alcançada em 1959, em razão dos conflitos políticos decorrentes da revolução cubana, que agitava toda a América Latina e levava Washington a desestabilizar governos democráticos latino-americanos.
A escalada inflacionária continuou em 1978, 1981 e 1982, explodindo em 385% no final de 1984/1985, quando o PIB caiu 7% e o governo democrático baixou o Plano Austral de congelamento de preços e salários.
Em 1991, Domingos Cavallo, economista neoliberal adotou plano de conversibilidade, reajustando preços no pico e salário na base, acompanhado de dolarização. Era o chamado Plano Bonex.
O Banco Central intervia diariamente no dólar, colocando os preços em variáveis incontroláveis. Nos anos seguintes, 2002-2007, sob o tacão neoliberal de Washington, a economia viveria instabilidade permanente. O prestígio do peso frente ao dólar entre 2009 a 2020 atingiu o ápice. A sociedade argentina entraria em estresse psicológico permanente. Em 48 anos, 16 anos de total instabilidade.
ESQUERDA PAGARÁ O PATO - A velha tática da direita neoliberal volta a funcionar: leva o país para o buraco, com seus acordos impossíveis de alcançar o mínimo de sucesso, como aconteceu no governo Macri, deixa o pepino para a esquerda resolver, que, impossibilitada de fazê-lo, perde eleição enquanto se envolve em monetarismo antidesenvolvimentista, colocando o peronismo em saia justa.
Não há recursos sequer para liquidar o décimo terceiro dos trabalhadores e a palavra de ordem do novo presidente é de que a culpa não é dele, mas da herança maldita que recebeu.
Em Washington, nesta semana, o novo presidente desancou a gestão Alberto Fernandez-Massa que levou o país à hiperinflação, contra a qual não haverá outra saída senão arrocho fiscal e monetário neoliberal cuja face é a queda dos empregos e da qualidade de vida dos trabalhadores.
Milei faturou espetacularmente a inflação, culpando a elite peronista de irresponsável, escondendo, por baixo do tapete, que ela há havia herdado conta amarga, impossível de pagar: o empréstimo a juros extorsivos junto ao FMI assumido pelo ex-presidente Macri e seu ex-ministro da Fazenda, Luis Caputo, recomenda, agora, o mesmo receituário que Fernandez e Massa recusaram a assumir.
O resultado, a queda do prestígio popular de Massa, no segundo turno, contra Milei, apenas, comprova que a centro-esquerda, o peronismo, caiu, mais uma vez, no alçapão da direita neoliberal.
